Fotógrafos e Fotografias do Recôncavo

Relatos pessoais e interpessoais sobre imergir no Recôncavo com uma câmera na mão

Fotografias Afetivas

Eu nasci em Cachoeira em 1995, nasci e cresci no Recôncavo e muito antes de registrar as coisas a minha volta com as objetivas de uma câmera eu já produzia fotografias afetivas da região onde eu vivo. Os fevereiros com a festa em Santo Amaro da Purificação, que não tardei em descobrir e que me fizeram capturar minhas fotografias afetivas a partir do som, os carnavais de Maragogipe, que cheguei a conhecer um pouco mais tarde mas que fizeram explodir em tantas cores os registros que eu vinha há tempos colecionando, os junhos em Cachoeira que sempre vêm acompanhados do São João, que tem um cheiro muito específico, com uma mistura de pólvora dos fogos e do amendoim cozido que minha mãe sempre fazia – e ainda faz. Continuando em Cachoeira, tem o agosto tão especial, com a Festa da Irmandade da Boa Morte, onde construí minhas fotografias afetivas desde a escola, sempre perguntando com curiosidade sobre tudo que envolvia esse evento.

Gosto de observar as coisas a minha volta, em silêncio, por isso muito antes de ter a minha primeira câmera, já registrava tudo o que eu via. O objeto câmera, me fez transformar as fotografias afetivas em algo físico, – mas não menos afetivo – para fora dos meus olhos, permitindo que a partir daí eu pudesse compartilhar com os outros minhas impressões acerca do mundo. Mas é claro, que muito (muito, muito) antes de mim, na época uma garota de 16 anos, comprar uma máquina e decidir construir registros de onde vivo, outras muitas fotografaram o Recôncavo e todos seus sons, sabores, tradições e cores oníricas. É o caso de Damário da Cruz poeta, fotógrafo e jornalista baiano, nascido em Salvador e que viveu grande parte da sua vida aqui – o que o fez ganhar título de cidadão cachoeirano em 2005.

Damário da Cruz e Seu Zé: Entre poesias, fotografias e abelhas

Damário (que faleceu em 2010) era amigo do meu pai e quando falo dele sempre me lembro de uma situação muito específica: Uma tarde no Pouso da Palavra (local que ele fundou em Cachoeira) em que meu pai foi visitá-lo e eu fui junto. Eu devia ter uns 7, 8 anos e enquanto os dois adultos conversavam, eu estava lá perdida entre os livros, câmeras antigas e quadros do local, até o momento que me aproximei e ele pediu pra me fotografar. Damário percebeu que mesmo olhando com curiosidade para o objeto em suas mãos, eu fiquei tímida quando ele resolveu o apontar pra mim, sendo assim, começou uma conversa perguntando se eu gostava de morar em Cachoeira.

A partir daí fui esquecendo a lente voltada pra mim e prestando atenção nas histórias contadas. Esse instante em que eu finalmente travei um diálogo com ele foi a primeira vez que o ouvi falar sobre seu amor pelo Recôncavo e principalmente Cachoeira, com o passar do tempo, fui conhecendo o seu estilo e me aprofundando na sua obra. Damário retratou Cachoeira de uma forma delicada e com sua estética que unia fotografia à poesia mostrou através de seus ângulos inusitados e cores contrastantes a magia que pode existir no cotidiano de uma cidade. A fotografia de Damário serve de inspiração para muitos e aqui posso citar o fotógrafo Jose Dayube, mais conhecido na cidade como Seu Zé.

Fui conversar com Seu Zé no CAHL e estava com muita vontade de saber alguma coisa nova sobre seu trabalho, já que vinha o acompanhando há algum tempo. Mas, não demorei a achar um fato novo: fui surpreendida logo no início da entrevista, quando perguntei como ele começou a fotografar e ele me contou que foi por influência de Damário.

Em meio a movimentação dos alunos que passavam conversando sobre a ocupação do Centro que estava acontecendo naquela semana ele me contou que começou a fotografar não por hobby, mas para catalogação do seu trabalho com apicultura. A partir daí, ele começou a virar suas lentes para além das abelhas e assim, descobriu novas formas de ver as coisas. Certo dia, mostrou esses registros a Damário (que era seu amigo) e o poeta o incentivou a continuar fotografando as coisas a sua volta.

Em 2009, quando Seu Zé já contava com um acervo considerável, seu amigo propôs a montagem da sua primeira exposição, que saiu com o nome de Seu Zé Também Espia. Com isso, a linguagem de José Dayube ou, Seu Zé estava definida: imagens que mostrassem toda simplicidade e beleza existente nas pequenas coisas do Recôncavo, desde as manhãs em Santiago do Iguape e os pôr do sol em Cachoeira até costumes típicos, como as caretas de Acupe e os mascarados do carnaval de Maragogipe.

O Recôncavo sob novos olhares

Com Camilla Souza tenho três pontos em comum: nascemos no Recôncavo, estudamos jornalismo e fotografamos. Seu interesse na área da fotografia surgiu há quatro anos e ela me conta que foi no momento que ela percebeu a importância de registrar, mostrar e preservar as tradições e memórias de Cachoeira e região.

Edmundo Querino é um fotógrafo amador de Maragogipe, fotografa há dez anos mas sempre com dispositivos simples, atualmente ele faz fotos com o celular. Nascido e até hoje vivendo em Maragogipe, ele começou a fotografar quando passou a perceber as belezas naturais que rodeiam cidade. Seus registros são focados em fotos de paisagens, onde nasceres e pôr do sol, arcos íris e o rio são muito bem representados. A prova de que não se precisa de um equipamento caro e cheio de aparatos para fazer boas fotos.

Dentre os assuntos que conversei com Camilla e Edmundo, um deles foi a memória e a importância da fotografia para preservá-la. Os dois tocaram no ponto do poder que a fotografia tem de imortalizar a cultura de um local e repassá-la como informação para várias pessoas, principalmente hoje em dia com a grande facilidade de compartilhamento que a internet proporciona.

Os dois fotógrafos são jovens e trazem novos formatos de perceber as coisas ao unir tradições e as modernidades das câmeras digitais, redes sociais e compartilhamento online de suas fotografias. Camilla usa o Flickr para mostrar o que anda produzindo e Edmundo faz parte de um grupo (no Facebook e com uma conta no Instagram) chamado Ah, Maragogipe onde fotógrafos e entusiastas se unem para trocar experiências e seus olhares sobre o local onde vivem.

Quem é reconvexo e pode ser Recôncavo

A conhecida letra da música Reconvexo, de Caetano Veloso sempre me inspirou muito a prestar atenção nas belezas do lugar que vivo e por onde passo e de todas as coisas peculiaridades que neles existem. Mas, a frase “quem não é Recôncavo e não pode ser reconvexo” é minha parte favorita, me levando várias vezes a pensar no significado que eu poderia atribuir a ela. Lembro que entre os 15, 16 anos a ouvi bastante e em certa vez pensei que a frase citada vinha pra mim em forma da ideia de pertencimento. Problema inclusive, que muito tive com minha cidade.

Pertencer é se sentir parte de algo, nos identificar com aquele todo que nos rodeia, nos perceber como parte da engrenagem que depende também do nosso movimento para funcionar. Demorei pra me sentir assim e esse trecho específico me levou muito a essa reflexão, até o momento que entendi que antes de sair por aí, preciso antes me encontrar aqui. Primeiro Recôncavo para depois reconvexo.

O conceito de pertencer também pesou bastante na minha fotografia, me fazendo pensar sempre na diferença de estar fotografando algo de que faço parte e de chegar em um lugar que nunca estive antes para registrá-lo. Daí, a percepção da importância do(a) fotógrafo(a) imergir naquela cultura ou assunto que pretende fotografar.

Vinicius Xavier e Albertus Sá são dois fotógrafos veteranos que estão em lados opostos dessas linhas. Vinicius é de Salvador, fotógrafo independente desde 2003 e busca retratar a cultura popular brasileira e Albertus é atualmente o fotógrafo da Assessoria de Comunicação de Maragogipe (cidade de qual ele é natural) e trabalha com uma câmera desde de 1976. O primeiro é reconvexo, o segundo Recôncavo.

Vinicius Xavier tem forte ligação com Cachoeira e a região e possui inúmeros registros da sua cultura (como festa da Boa Morte e as Caretas do Acupe). Perguntei a ele o que ele acha que difere do olhar dele, sendo alguém que vem de fora e do olhar de um fotógrafo que já vive naquela realidade e foi exatamente no ponto da imersão que ele tocou.

Segundo seu relato, ele faz uma imersão total na cultura daquilo que pretende fotografar, tendo também como forte aliada a metodologia etnográfica de observação dos participantes nos grupos sociais que pesquisa. É bastante claro nos registros de Vinicius o vínculo que ele cria com o que está sendo fotografado, captando momentos e expressões que fogem do clichê, local em que o simples visitante pode cair com bastante facilidade.

Albertus Sá é o lado Recôncavo da conversa. Natural de Maragogipe o fotógrafo vem desde 76 registrando seus principais eventos e tradições – como a pesca realizada no mangue, por exemplo. Indaguei Albertus sobre o mesmo tema que conversei com Vinicius: a diferença do seu olhar de morador e natural da cidade para o de alguém que vem de fora. Ele me respondeu de forma sucinta e direta que muitas vezes a vivência naquele local pode te dar mais conhecimentos e aprofundamento nas tradições e costumes daquela região.

A conclusão que pude tirar comparando minha conversa com os dois fotógrafos é que o segredo é imergir. Se eu venho de fora, que eu aprenda o máximo sobre esse local, para apurar meu olhar e fugir de tudo aquilo que me parece comum e se eu faço parte daquilo, também preciso imergir no mundo que me rodeia, me ver como parte dele para poder retratar da forma mais honesta aquilo que vejo e sinto sobre ele. Ou seja, é preciso pertencer.

Foto de capa: Thainá Dayube

 

 

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