A difícil rotina dos estudantes que não moram em Cachoeira

Jovens enfrentam mais de duas horas de viagem todos os dias para perseguir o sonho de concluir uma graduação.

Rafael Cerqueira

Vida de estudante não é fácil. A universidade por si só já é desgastante, e as obrigações acadêmicas muitas vezes aliam-se a empregos, estágios ou outros cursos, o que torna a rotina ainda mais cansativa. Imagine então somar a tudo isso mais uma ou duas horas de viagens diárias para ir à universidade?

Esta é a realidade de vários estudantes do Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, localizado na cidade de Cachoeira, a 120 km da capital Salvador. Esses jovens, vindos de cidades como Cruz das Almas, Governador Mangabeira e Feira de Santana, enfrentam os riscos e o desconforto de estradas poeirentas e esburacadas para assistir às aulas.

Os motivos que justificam fazer essas viagens em vez de morar em Cachoeira são vários: emprego, outro curso, apego familiar ou até mesmo se distanciar das agitadas noites da cidade. Entretanto, o principal motivo para a permanência desses estudantes em suas cidades natais ainda é a condição financeira.

O custo de vida para um estudante em Cachoeira ainda é alto. Os alugueis variam entre R$ 200,00, para quem mora em repúblicas, até R$ 800,00 para quem optou por morar sozinho. Junto a isso, ainda existem os gastos com água, energia e alimentação, entre outros. Colocando na balança, fica mais vantajoso para quem mora perto de Cachoeira não sair de sua cidade natal, visto que os gastos com transporte e alimentação são menores.

O transporte alternativo é unanimidade na escolha para o translado desses estudantes. O valor das passagens varia entre R$ 3,50 (Governador Mangabeira) a R$ 9,00 (Feira de Santana). Para os feirenses, isso implica em um custo mensal de R$ 360,00 apenas com transporte caso a semana tenha cinco dias de aula. Porém, esse valor pode variar, visto que as matérias escolhidas pelos estudantes podem não preencher a semana inteira.

Morar fora pode ser mais vantajoso do ponto de vista financeiro, mas acarreta também algumas dificuldades enfrentadas por esses estudantes em seu dia-a-dia.  Segundo Flávia Santos, 24, estudante de jornalismo que mora em Cruz das Almas, “a pior delas sem dúvida é a questão de acordar muito cedo para pegar a van e não chegar atrasada na aula, e isso acontece com frequência devido às paradas do transporte”.

A opinião é compartilhada por Felipe Coutinho, 20, também estudante de jornalismo e morador de Governador Mangabeira, que destaca a “dificuldade de chegar no horário nas aulas e na volta para casa”.

Ainda há a questão dos assaltos a vans que ocorrem frequentemente. Apenas na última semana, foram assaltadas duas vans; uma que fazia o transporte de Cruz das Almas e outra que voltava de Cachoeira para Feira de Santana.

Do ponto de vista acadêmico, as principais dificuldades apontadas pelos estudantes são as de socialização com os colegas e também da participação em atividades que ocorrem fora dos horários de aula.

“Acredito que há uma diminuição do convívio com os colegas e a dificuldade de participar de atividades extras dos professores, como grupos de pesquisa e extensão”, afirma Lorena Carneiro, 23, estudante de jornalismo, que mora em Feira de Santana, a 60 km de Cachoeira.

A UFRB oferece atualmente cinco auxílios-transporte no valor de R$ 250,00 por campus para estudantes que não moram nas cidades onde esses campi estão localizados. Essa quantidade é pouquíssima visto que, pelo menos no CAHL, uma boa parte dos estudantes mora fora de Cachoeira.

Para José Edson, 20, estudante de ciências sociais e morador de Feira de Santana, “uma ampliação desse programa ajudaria mais alunos da casa e atrairia mais novos discentes em próximos semestres”.

Existe atualmente um transporte intercampi que liga as cidades que possuem campus da UFRB. Porém, o uso desse transporte para ir ao CAHL é inviável, pois os horários não são compatíveis com o das aulas. Seria necessária então uma melhoria do programa para atender a essa nova necessidade.

É o que propõe a estudante de jornalismo Catharina Arouca, 18, moradora de Feira de Santana, ao sugerir “um transporte intercampi com melhores horários e menos burocracia”.

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