A indumentária das irmãs da Boa Morte

Por Caique Fialho, Camilla Souza e Luana Souza

Entre os atributos que agregam valor sociocultural à confraria da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, a indumentária é aspecto enriquecedor. A preservação das vestes e joias revela a riqueza e simbologia existente por trás do sincretismo e da fidelidade às origens culturais, que consagram a institucionalização dessa congregação. O status de mulheres negras e nobres
é expresso nos trajes que as diferenciam das mulheres “comuns”.


Sobre as Vestes
A primeira veste é a de baiana, usada no cortejo da sinalização da morte de Nossa Senhora. Um traje branco, cuja a saia é de richelieu (bordado francês), acompanhado de anáguas que representam o empoderamento destas mulheres. No dia 14 de agosto, elas se vestem como mulheres/freiras mulçumanas, com uma espécie de bioco cobrindo partes da cabeça. Traje que evidencia o luto.

A última veste, usada na procissão de Nossa Senhora da Glória, traz a cor preta na saia como sinônimo de integração social e quebra ao preconceito que durante séculos escondeu a cor. O uso do chamado pano da costa em tom preto aveludado e vermelho totaliza a indumentária do dia. O traje de beca advém da Europa, com influência islâmica, mulçumana e asiática. Como uma espécie de legado herdado pelas mulheres negras. Entretanto, além da valiosa história que acentua a importância da Irmandade, a dimensão simbólica das vestes que compõem os dias de consagração religiosa, é também grande demarcadora de identidade. Mais que a estética que confirma a dimensão expressiva das vestes, a fé e devoção a Nossa Senhora da Boa Morte ressalta a sublime força que rege o sincretismo diante da Irmandade.

Sobre as jóias
A joias utilizadas pelas irmãs durante os cortejos foram adquiridas através do trabalho de cada uma e da venda de quitutes. Os correntões cachoeiranos (feitos com elos largos que lembram antigas alianças portuguesas) ganharam esse nome, porque se referem à Cachoeira, ao Recôncavo da Bahia. Outro aspecto interessante é que cada elo significava o dinheiro da luva coletado antes da festa ou da troca de escravos.

Cada escravo, conforme a nação a que pertencia, era trocado por um elo, a depender do preço que o senhor pedia. A depender do preço, se trocava por prata, ouro ou bronze. O uso de dois ou mais correntões cachoeiranos, arrematados com medalhões, cruz palmito, entre outros adornos, faz da roupa de beca um exemplo de barroquismo baiano, aliado aos princípios de representações.

Atualmente, muitas dessas joias se perderam e o fato é que as irmãs passaram a usar bijuterias, que sugerem, de modo semelhante, a riqueza e o gosto pelo ornamento presente entre elas.

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