Além da militância: diversidade e inclusão na produção acadêmica

O Centro de Artes Humanidades e Letras mostra como atrela militância e produção acadêmica por uma educação mais diversa.

O Brasil em sua essência é composto por expressões culturais diversas entretanto durante muito tempo elas estiveram pouco e mal representadas na educação. Nos últimos anos o Ministério da Educação tem orientado suas políticas públicas para perceber e incluir os grupos historicamente apartados buscando a promoção dos direitos humanos através da proposta de uma Educação para a Diversidade visando promover o debate sobre a educação como um direito fundamental, que precisa ser garantido a todos e todas sem qualquer restrição.

A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) dentro desse contexto carrega o status de universidade mais inclusiva do país, fazendo do CAHL que é o Centro de Artes Humanidades e Letras da UFRB um polo de efervescência política causada pelas minorias sociais diversas levantando bandeiras através das produções acadêmicas, resistindo ao silenciamento e inviabilização ao ponto de ter essa realidade refletida na eleição de uma gestão de centro que esteja atenta para entender e respeitar essa diversidade.

Direção de centro

Jorge Cardoso Filho é docente, jornalista e novo diretor do CAHL, a campanha da chapa que ele representou ganhou a ampla confiança e o apoio da comunidade acadêmica com uma proposta de gestão que trouxe como princípio o respeito à diversidade e a inclusão. De acordo com ele a diversidade não foi um objeto perseguido e sim uma consequência do modo como se pretende construir um projeto de forma mais aberta e inclusiva. “A diversidade apareceu muito na campanha como resultado de um modo de pensamento nosso. Buscamos garantir a diversidade no campo das ideias politicas, permitir o contraditório e permitir que pessoas com outros pontos de vistas se manifestassem” disse ele.

O diretor Jorge Cardoso e o vice Gabriel de Ávila na Feijoada que Queremos em novembro de 2015. Foto: Assessoria O CAHL que queremos.
O diretor Jorge Cardoso e o vice Gabriel de Ávila na Feijoada que Queremos em novembro de 2015. Foto: Assessoria O CAHL que queremos.

A inclusão de fato foi o que se tornou o tom da campanha “O CAHL que queremos”. Foram promovidas dinâmicas como a caixa de sugestão onde cada estudante, servidor ou professor poderia fazer uma ou mais sugestões a serem incluídas no plano de gestão dos candidatos. Essa ação estimulou uma cultura criativa e de participação mostrando que todos podem participar ativamente da política no centro. “Eu acho que a gente foi muito vitorioso por causa disso. A comunidade acadêmica percebeu que a nossa proposta era coerente com a forma de fazíamos as coisas; diversidade e abertura sempre foi um principio que a gente conseguiu firmar na campanha e estamos tentando garantir para a gestão” Concluiu ele.

Gênero, raça e lesbianidade

Atividades realizadas pelo LES com mulheres em situação de encarceramento no Conjunto Penal de Feira de Santana.
Atividades realizadas pelo LES com mulheres em situação de encarceramento no Conjunto Penal de Feira de Santana.

Uma mulher lésbica que é professora da UFRB há quase sete anos, ministrando o componente curricular “direitos humanos” no curso de Serviço Social, Simone Brandão criou um projeto de pesquisa e extensão que discute os direitos sexuais da mulher negra e lésbica em situação de prisão e hoje atua de forma mais militante pelas bandeiras da diversidade sexual e mais especificamente sobre a questão lésbica.

Simone também criou o Laboratório de estudos e pesquisa em lesbianidade, gênero, raça e sexualidade (LES) por que entende que é importante trabalhar na perspectiva interseccional, pensando a questão de gênero, raça e sexualidade, entendendo-as como categorias de análise e também categorias que quando interceptadas, aumentam a exclusão e o processo de abjeção em relação às pessoas e as identidades.

Questionada sobre a proposta e linhas de pesquisa que compõem o LES, Simone diz que pensou na consolidação de um grupo que desse visibilidade as mulheres lésbicas no ambiente acadêmico “Procurando no diretório de grupos de pesquisa do CNPQ você vai ver vários grupos de pesquisa que discutem gênero e sexualidade, mas ai você vai no mesmo diretório e procura o termo lesbianidade você vai ver que existem uma ou outra linha de pesquisa dentro desses grupos mas você não vai ter um grupo que se dedica especificamente a questão da lesbianidade e é isso que eu pretendo com o LES, falar sobre mulheres lésbicas por que é um grupo que precisa ser empoderado dentro da universidade. Quero meninas lésbicas produzindo sobre elas” afirmou.

Masculinidade, juventude e periferia

Lembrando que questões de gênero não diz respeito apenas a mulheres, o Brincadeira de Negão- Subjetividade e Identidade projeto que através da pesquisa-ação (activist research) e diálogo horizontal com os envolvidos, consegue transpor os muros da universidade e levar a discussão sobre gênero e sexualidade para jovens estudantes das escolas públicas de Cachoeira e São Félix. O professor doutor Osmundo Pinho é quem coordena o projeto que promove grupos focais para discutir categorias relevantes para os jovens como, por exemplo, o patrão – categoria muito presente nas narrativas do pagode baiano e do funk carioca e que reúne todos os valores que caracterizam o ideal de masculinidade almejado pelos jovens homens negros de periferia. Ao responder as curiosidades dos pesquisadores os jovens também são levados a refletir sobre esses valores.

Capa da cartografia "Pegada de patrão" produzida pelo então integrante do Brincadeira de Negão, Gimerson Roque.
Capa da cartografia “Pegada de patrão” produzida pelo então integrante do Brincadeira de Negão, Gimerson Roque.

O projeto Brincadeira de Negão também significa aproximar a universidade pública da escola pública, um compromisso fundamental que materializa o fazer pesquisa de uma forma mais simétrica, mais dialógica.“Se a construção de gênero acontece historicamente, politicamente condicionada, é atravessada por contradições sociais de outras ordens, de classe, de raça, a masculinidade também foi historicamente construída, também ela é relacional e também o homem negro, ele se coloca em uma situação determinada apenas porque é homem e por que é negro. O desafio é fazer os homens pensarem a cerca disso e é o que podemos fazer na escola pública” afirma Osmundo.

Essa coisa de diversidade é só discurso?

Embora promova seminários e eventos para expor o que têm sido produzido e discutido no centro, ainda é comum que pessoas externas a tal realidade acadêmica perguntem, muitas vezes de maneira provocativa, se a pauta da diversidade no CAHL em Cachoeira é apenas discurso militante ou  se realmente existe pesquisa e produção no centro.

Tal questionamento além de deslegitimar as movimentações políticas chega até mesmo a pôr em duvida a qualidade do conhecimento produzido por discentes e docentes. É preciso desconstruir o estereótipo que diz que pautas militantes empobrecem a produção acadêmica e provar quão importante é que as universidades brasileiras produzam conhecimento inclusivo e  que represente a diversidade do seu povo.

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 Fotos: Arquivos Pessoais Osmundo Pinho e Simone Brandão.

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