As mulheres em Doctor Who

Uma discussão sobre como a representatividade feminina se modificou ao longo da maior série de todos os tempos 

Doutor Quem?

Doctor Who é a série mais antiga da televisão, lançada em 1963 pelo canal britânico BBC, completou em 2013 50 anos e hoje soma 36 temporadas, que podem ser divididas entre a série Clássica (produzida entre 1963 à 1989) e a mais recente, chamada de New Who (de 2005 até agora).

A série conta a história do Doutor, viajante do tempo e espaço que pode se regenerar, assim mudando sua aparência física e personalidade mas conservando sua história e suas lembranças. Essa premissa permitiu que desde de 63 venham sendo produzidas novas temporadas, com novos atores.

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Ao todo já passaram pelas telas e pela TARDIS (nave que permite que os Senhores do Tempo viajem através do tempo e do espaço) 11 Doutores diferentes. O Doutor é um personagem que busca a justiça e “curar”o universo de seus males. Como ninguém sabe seu nome, a pergunta constante é “Doutor quem?” (em inglês, “Doctor who?”).

O personagem geralmente viaja acompanhado de um humano, chamado na série de companion, que o ajuda em suas aventuras. Esses acompanhantes são considerados personagens importantes dentro da trama, porque são olhos leigos dentro de um universo completamente novo. Um fato predominante nessas figuras é que são na maioria das vezes personagens femininas, principalmente no reboot em 2005.

Companions Era Clássica (1963 – 1989)

Na década de 60, quando Doctor Who estreou no BBC a mulher era vista na sociedade de uma forma bem diferente dos dias de hoje e consequentemente, sua representação também era de outra forma. Vista muitas vezes como submissa, fraca e dependente do homem era muito rara uma personagem que quebrasse esses padrões na indústria daquela época.

Antes do movimento feminista contemporâneo tomar forma e se espalhar (coisa que só veio acontecer na segunda metade da década de 60), as mulheres eram vistas como feitas pra casar e só adquiriam alguma posição social quando possuíam uma família e marido. Esse silenciamento e falta de protagonismo feminino, acabou refletindo na história de Doctor Who.

O típico papel da mulher indefesa, em perigo e que sempre precisa de um homem para lhe explicar as coisas é até hoje uma das maiores falhas do roteiro da série. As companions sempre mostravam uma dependência enorme do Doutor e aqui temos um importante fato a pontuar: Isso só acontecia com companions mulheres, os homens que chegaram a ocupar essa posição sempre eram mostrados em situações de coragem e conhecimento pareados com o Doutor.

Até o terceiro Doctor, a dependência e submissão das mulheres era muito explícita. Susan Foreman, Vicki e Polly Wrigth foram as três primeiras companions da série e passaram as suas histórias exatamente nessa posição de fragilidade, dependência e falta de coragem. Neste trio, podemos destacar a problemática da Polly Wright, que não viajou só com o Doctor na TARDIS.

Além dela, outros companheiros de viagem foram adicionados (todos homens) e ela acabou se tornando apenas uma ponto fraco da trupe, ficando apenas como um acessório a ser salvo. A partir da quarta geração, as companions passaram a ser escritas de forma mais forte e nesse ponto, o público ganha grandes personagens femininas, como Liz Shaw, Sarah Jane Smith e Romana (interpretada por duas atrizes – Mary Tamm e Lalla Ward -, pois assim como o Doctor, ela também era uma Senhora do Tempo e podia se regenerar). Essas personagens se mostraram muito mais independentes, espertas e corajosas, chegando a resolver casos sozinhas e durante as missões, também estabeleciam um diálogo em igualdade com o Doctor.

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Companions New Who (2005 – até agora)

Em 2005 a série ganhou reboot e a partir daí não parou mais de ser exibida (tendo contrato renovado com a BBC até 2020). Mesmo voltando as atividades em uma época bastante diferente, onde mulheres ocupam cada vez mais espaços e lutam pelos seus direitos o programa ainda tem muitas coisas para apontar.

Desde de 2005 até a última temporada exibida (2015), passaram pela TARDIS mais cinco acompanhantes. E é importante observar como mesmo todas elas apresentando personalidades bem diferentes, os roteiristas ainda insistem em alguns pontos, como o fato da companion se apaixonar pelo Doctor ou não ter coragem/inteligência suficiente para resolver algo.

Podemos falar de Rose Tyler e Martha Jones, a primeira e terceira companion do reboot. Rose era uma típica jovem de Londres, que depois que conhece o Doctor resolve abandonar tudo para viver aventuras espaço (e tempo) afora. Ela foi retratada como extremamente emocional e dependente do Doctor. A maioria das atitudes dela eram levadas pelo lado da emoção, como se ela fosse incapaz de racionalizar em algum momento.

Já a Martha, que semelhante a Sarah Jane (era clássica) conseguia resolver os problemas sozinha e sempre se afirmou com uma mulher forte, foi tratada com bastante descuido no roteiro. Uma personagem que tinha tudo pra ser excelente, tirando o fato de que desnecessariamente a colocaram para se apaixonar pelo Doctor, que no momento estava sofrendo por Rose ter ido embora.

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As relações de Amy Pond e Donna Noble já estão inseridas em outro contexto, já que Amy era casada e leva o seu marido (Rory) para a viagem com ela e o Doctor. Enquanto Donna possuía uma relação não romantizada com ele, fazendo o papel de amiga “pra todas as horas”.

A última companion foi Clara Oswald. A Clara também segue a linha de amiga e companheira de viagem ao invés de apaixonada irremediável pelo alienígena. Ela tem uma vida aqui e decide que mesmo querendo viajar com o Doctor, quer também continuar com seus projetos aqui, se dividindo entre a TARDIS e a Terra.

Mas mesmo sendo uma personagem que se divide entre viagens espaciais e vivências terrestres, o roteiro ainda falha na sua representação com um trabalho um tanto preguiçoso. Alguns fatores na vida de Clara surgem e não são explicados, como por exemplo quando ela se torna professora: em nenhum momento nos dão explicações maiores de como isso aconteceu, mostrando mais uma vez a  descaso de roteiristas de escreverem personagens mulheres, não mostrando o pano de fundo da sua vida nem quem ela é além de companion do Doutor.

Doctor Who é machista?

Falar em personagens femininas dentro do universo da ficção científica sempre foi um problema. Com personagens altamente estereotipadas dentro de um gênero predominantemente masculino, era a coisa mais comum ver as personagens femininas sendo colocadas em segundo plano como as donzelas indefesas que precisavam de salvação ou como a figura do “sidekick”. Não é raro ver isso acontecendo hoje em dia, mesmo que tenhamos algumas grandes vitórias em Rey (Star Wars – The Force Awakens).

Doctor Who é a série de maior duração e sua existência acompanhou a evolução do papel das mulheres na sociedade sendo assim, da mesma forma que a típica submissão e dependência da mulher dos anos refletiu nas personagens da Era Clássica é importantíssimo que as mulheres de agora reflitam a atual luta.

Doctor Who evoluiu muito em efeitos especiais, mas pouco em representação feminina. Não se pode dizer que não existem boas personagens e bons momentos de mulheres na série, existem sim mas, comparada a magnitude da história é pouco, muito pouco. Em 53 anos nunca tivemos uma mulher assumindo o papel de Doctor, pouquíssimas passaram pela direção, roteiro ou produção e as companions ainda são retratadas de forma problemática. Em 2017 a série volta e a nova companion já foi anunciada. A atriz Pearl Mackie interpretará Bill e em seu vídeo de divulgação deixou muitos fãs empolgados, se mostrando como uma personagem que promete trazer novos ares a série.

Veja o vídeo de apresentação da Bill, que estará com o Doctor na próxima temporada:

Quer saber um pouco mais sobre o sexismo em Doctor Who? Ouça o podcast do Plano Crítico:

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