Como as mulheres são socializadas dentro de uma sociedade machista

 

Iasmyn Gordiano

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Imagem retirada do blog Não me Kahlo

A construção de gênero é um processo importante que é incutido desde a infância. Ainda bebês, as meninas são marcadas com a primeira de muitas etapas da socialização feminina: coloca-se um par de brincos na criança para mostrar à sociedade que aquela é um indivíduo do sexo feminino. Enquanto ela desenvolve-se como um ser social, é ensinada a como sentar, agir, falar, brincar, pensar; qual tipo de roupa deve utilizar, as cores que são “de menina”, as profissões as quais ela deve ter aptidão, assim como desde cedo é imposto o gosto pelos cuidados da casa. As mulheres são ligadas ao instinto maternal, a sensibilidade, enquanto aos homens são dadas características que reafirmem a sua masculinidade e as habilidades para tarefas que precisem de pensamento lógico e uso da força.

Segundo a autora de “Des-construindo gênero em ciência e tecnologia”, Elizabeth Bortolaia Silva, “A localização do doméstico como ponto de partida indica como o lugar da mulher é constituído a partir do lar e família. Esse posicionamento da mulher estabelece construções particulares de tecnologias para o trabalho doméstico.” A criação de mulheres dentro de uma cultura machista implica que esses corpos foram educados para a submissão e para a vida voltada para o lar. A dona de casa Simone Souza, 78 anos, acha importante essa designação de papéis entre homens e mulheres. “Antigamente as mulheres cuidavam dos seus filhos e marido, enquanto o homem trabalhava para sustentar a casa. Não tinha essa separação como hoje, que as mulheres trabalham fora e deixam os filhos sendo cuidados por outras pessoas. Na minha cidade (Baixa Grande) era um escândalo quando uma mulher se separava ou saia de casa para trabalhar”, conta.

Para a jornalista Mara Rocha, seu pai tinha mais naturalidade para tratar sobre assuntos tidos como tabus com as três filhas. “Meu pai, embora machista, sempre foi uma pessoa à frente do seu tempo. Conversava com as filhas sobre tudo. Não existia pergunta, por mais constrangedora que fosse, que ele não respondesse. Minha mãe tinha mais dificuldade nesse ponto de vista. Ela, mesmo sendo da geração pós década de 60, ainda carregava consigo algumas preocupações com aparência e comportamento (mocinhas precisam se dar ao respeito), muito mais devido à região onde cresceu, interior da Bahia, onde essas questões tinham alguma importância”, pontuou. Mara também conta que seus pais sempre valorizaram o estudo, colocando-o como prioridade na vida das filhas. “Cheguei a ouvir diversas vezes em casa “Não ligo de te acompanhar na igreja para seu casamento, mas faço questão de te entregar o canudo na formatura””, fala.

A diferença na educação dos filhos também é questionada.  A estudante de administração Manuela Santana, acha que recebeu uma educação mais rígida do que os irmãos mais velhos. “Meus pais não me deixavam sair de casa sem a presença de um dos meus irmãos e quando sabiam por algum deles que eu estava com um paquera, era proibida de sair. Nunca pude levar um namorado para dormir em casa, enquanto meus irmãos, que tinham apenas dois anos de diferença de mim, levavam as namoradas com frequência”, disse. Em relação às primeiras experiências sexuais, ela concordou que eles tiveram muito mais liberdade. “Perdi a virgindade com 18 anos, mas não pude falar com meus pais sobre isso, mesmo já sendo maior de idade. Meus irmãos eram incentivados por meu pai a ter relações com várias garotas, enquanto eu tinha que permanecer virgem”, admitiu. Mara, mãe de dois meninos, acha importante falar sobre questões sociais com seu filho mais velho. “Falamos sempre em respeito às diferenças, de gênero, classe e todos esses argumentos que, agora, geram polêmica, mas que, acredito eu, para a geração dele serão uma banalidade, assim como hoje para mim o “comporte-se como mocinha” é”, pontua.

Família e mercado de trabalho

A permanência das mulheres no mercado de trabalho após o casamento e filhos também é fruto da socialização feminina. Como os cuidados com o lar e a família são colocados para elas como prioridade, muitas acabam se afastando dos empregos. “ Da nossa criação, sempre tive a minha mãe presente, porque ela abriu mão da carreira de professora primária para estar sempre presente na educação das três filhas. Minha mãe cuidava da casa e das filhas, enquanto meu pai pagava as contas de casa”, contou Mara. Mas, diferente de Manuela, ela afirma ter tido mais liberdade dentro do âmbito familiar. “Tudo sempre girou em torno das filhas. Mas esse apego nunca foi uma limitação. Eles sempre nos deixaram livres: na escolha de profissão, nas mudanças de cidade, nas trocas de namorado”.

“Engravidei aos 22 anos e tive de trancar a faculdade, pois meu namorado já estava perto de se formar e eu ainda estava no início da graduação. Embora ele me ajude, ainda é complicado aliar estudos e filha”, afirmou Manuela.  Mara, que é casada há dez anos, afirma que mesmo com o nascimento do filho mais velho continuou a trabalhar, mas quando ela ou seu marido precisam abdicar do lado profissional para cuidar das crianças, ela é a escolhida. “Muito também porque o salário do meu marido sempre foi muito superior ao meu. Assim, cheguei a dar outro viés à minha carreira, mas nunca a abandonei e tudo que conquistei até hoje (cursos, especialização, melhores empregos) foi à custa de muita dedicação e sacrifício”, conta.

Mara também afirma que, embora o marido seja mais presente nas atividades de casa do que o próprio pai foi, ainda não há a divisão igualitária das tarefas. “Em comparação a minha mãe, não enxergo isso com naturalidade e cobro, sempre que necessário, a participação dele. Nesse sentido, sinto que ele tem se esforçado”, conta. Ela lembra que a mãe desde sempre incentivou as filhas a estudar e não depender financeiramente de ninguém.

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