Cresce o número de câmeras de monitoramento em Cruz das Almas

Clécia Junqueira

Câmeras de vigilância têm se naturalizado numa lógica crescente por espaços públicos e privados das cidades baianas. Esse fenômeno é recente e tem mobilizado um conjunto de pesquisadores, brasileiros e estrangeiros, que tratam esse tema segundo uma perspectiva interdisciplinar.
Em Cruz das Almas, no interior da Bahia, os sistemas de monitoramento também são encontrados. Aqui, como nas grandes cidades, a demanda por segurança vem traduzindo-se na instalação de câmeras de vigilância. Segundo o secretário de serviços públicos do município, Ronivon Lemos de Carvalho, o uso de câmeras é uma forma de proteger a população cruzalmense. Acrescentou ainda, que a videovigilância é uma medida eficaz de combate a criminalidade, pois o registro das imagens pode ajudar na identificação de criminosos.

Câmera de segurança modelo 360º em Cruz das Almas
Câmera de segurança no centro de em Cruz das Almas

Para a dona de casa Marli Souza, as câmeras de segurança dão um conforto maior para transitar no centro da cidade. Já para a estudante de Biologia da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), Iully Garcia, muitas vezes essas câmeras de monitoramento inibem as atitudes do individuo, que é sempre colocado na condição de suspeito. A expressão “sorria, você esta sendo filmado”, para ela soa como algo que impõe controle e estabelece regras de comportamento.
Para discutir esse tema contemporâneo, convém trazer o relato de uma entrevista realizada com um estudioso do assunto, Eledison Sampaio, que defendeu uma dissertação intitulada “Práticas de videovigilância na cidade contemporânea: o caso da UFBA”. A pesquisa foi realizada no transcorrer dos anos de 2013 e 2014, sendo indicada para a publicação pela banca examinadora.

Quais razões te fizeram pesquisar o tema da videovigilância nas cidades?
Por duas razões. Uma razão de ordem mais teórica, pois a inserção de câmeras de vigilância demarca a emergência de novas formas de poder na cidade contemporânea. Temos que pensar que, para além da suposta segurança, as câmeras são engrenagens importantes para a dinâmica de funcionamento do capitalismo atual. A segurança, por diversas vezes, funciona como um discurso hegemônico e retórico, alienado dos problemas empíricos que atravessam as cidades brasileiras. Outra razão é de ordem mais empírica, pois existe um número limitado de pesquisas realizadas sobre o tema no Brasil e, mais especificamente, na Bahia. No mestrado, minha intenção foi capturar dados do sistema de videovigilância na UFBA para promover um confrontamento com a teoria revista sobre o tema. Contudo, essas pesquisas de campo encontram barreiras diversas, gerando dificuldades para operacionalizar.
Como você acaba de sugerir, existiram dificuldades para operacionalizar sua pesquisa empírica. Se possível, relate algumas que mais te tocou.
O desafio da minha pesquisa de mestrado foi romper a resistência dos responsáveis pelo funcionamento do serviço. Essa resistência é recorrente porque os serviços de vigilância e segurança envolvem dados (registros) de crimes e delitos. Os operadores não querem, naturalmente, entregar de bandeja as fragilidades e ambiguidades do sistema implantado. Em uma das idas à campo durante a pesquisa, um funcionário da vigilância armada da universidade implicou comigo por eu estar fotografando câmeras e espaços videovigiados. O guarda considerou uma atitude suspeita, merecedora de interpelação verbal e registro da ocorrência.
Como percebe a instalação das câmeras aqui em Cruz das Almas?
Em Cruz das Almas, como em Cachoeira e nas outras cidades interioranas, a mesma lógica da videovigilância é encontrada, ainda que em proporções menores. O argumento justificador da implantação é sempre a promessa de segurança. Em Cruz das Almas, as câmeras instaladas no centro da cidade são privadas. Isso significa que a instalação e a manutenção das câmeras são, em geral, de iniciativa e responsabilidade dos comerciantes. Interessante é que são câmeras privadas que fazem o monitoramento de espaços públicos. Para entrar mais fundo na questão, teríamos que saber como é realizada a administração das imagens, bem como outras informações sobre os objetivos dos comerciantes e a percepção da população em relação ao tema. Fica a sugestão para uma pesquisa monográfica.
Recentemente, a Globo anunciou o fim do programa Big Brother Brasil. Essa notícia te surpreende?
Bem, essa questão do big brother remonta ao clássico de Georg Orwel e traz uma outra faceta do dispositivo de videovigilância. Em programas como esse, a visibilidade das câmeras não é policial, mas relacionada ao sistema de espetáculo das imagens. Daí se desdobram questões como o culto ao corpo perfeito, o desejo em ser visto (consumido), bem como a alienação da intimidade em troca da fama.
Não sei ao certo qual a estratégia da rede globo com o anúncio do término do programa. De qualquer modo, algo é certo. Os big brotheres da vida real continuaram existindo de forma cada vez mais descentralizada e, portanto, complexa. Isso porque o interlocutor por detrás da câmera pode ser qualquer um, tanto o Estado e as Instituições, quando agentes informais e as pessoas físicas. Alguém pode estar me observando nesse momento. No olhar do outro, como não existem dados que comprovem a eficácia das câmeras, é oportuno pensar que a instalação ocorre segundo uma lógica de repetição, em vista da naturalização da videogivilância na sociedade.

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Câmera IP, 360 graus no centro de Cruz das Almas

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