de volta às raízes

A luta de Dheik para retornar às suas origens 

 Por: Flávia Xakriabá 

Ilustração: Topé Pãn

Sair do seu território de origem para tentar a vida fora sempre foi tarefa difícil, principalmente para quem vem de uma comunidade tradicional. Dheik Praia saiu da aldeia Cipiá, no Alto Rio Negro, em Manaus, no estado do Amazonas para cursar Ciências Sociais  na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, mas, assim como outros estudantes indígenas ou quilombolas nunca se esqueceu de suas raízes. A saudade de sua origem fez com que a estudante tentasse voltar para sua comunidade e rever seus familiares. Para isso, Dheik realizou um evento chamado Sarau Afroindígena com o objetivo de arrecadar fundos para custear sua passagem até seu território de origem.

O primeiro sarau afroindígena de Cachoeira foi realizado no museu do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), na praça da Aclamação ou praça do Canhão, como muitos a conhecem. O evento reuniu artistas indígenas e não indígenas, com apresentação e performances, poesia e música. Além da volta para casa, Dheik também cita o objetivo maior dela ter pensado e realizado esse projeto. “O principal objetivo mesmo do encontro era convidar amigos/conhecidos negros e indígenas que pudessem apresentar suas artes… Pura e simples, um espaço de projeção, conexão, ponte para encontros ou outras possibilidades”.

A primeira apresentação foi de Beatriz Tuxá, que cantou e recitou poesias lembrando as lutas, tradições e cultura dos povos indígenas. “O meu canto é um grito de aldeias nas minhas veias”, pequeno trecho de uma das músicas composta por Beatriz.

Numa referência aos saberes ancestrais sobre a terra e plantas como cura espiritual e de enfermidades, a artista Keila Serruya fez uma performance com folhas e terras pelo corpo. “A proposta é instigar a percepção sobre aquilo que nasce da terra como remédio para o corpo, cura para alma e nutriente, o ato performático de soterrar-se cria conexão com a ancestralidade e seu conhecimento ainda não esquecido”, é o que diz a artista Keila.

Foto: Keila Serruya

A importância da representatividade

Para o Coletivo de Estudantes Indígenas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), o sarau foi muito importante como espaço de representatividade. “Ver uma performance na qual se usou ramos e a própria terra que é mãe para nós indígenas levou a refletir o quanto estamos ligados e conectados à natureza e às raízes da sabedoria ancestral de nossos antepassados, sejam eles indígenas ou negros”, diz Antônia, estudante do curso de Museologia e uma das integrantes do Coletivo de Estudantes Indígenas na UFRB.

Quem vem de uma comunidade tradicional aprende desde cedo que, mais importante do que sair para estudar ou trabalhar é voltar para seu povo, seu território e levar um retorno positivo, e é assim que Dheik e todos estudantes indígenas e quilombolas da UFRB pretendem fazer, levar tudo que a universidade ensinou para suas aldeias ou quilombos e passar de maneira mais simplificada para crianças, jovens, adultos e crianças, e mostrar como a universidade pode se tornar uma arma poderosa em prol da causa dos povos tradicionais.

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