Desafios e conquistas das mulheres negras e quilombolas

Na comunidade de Baixa Grande, em Muritiba, as mulheres são protagonistas na luta pela preservação cultural, combate ao racismo e na busca por melhorias na qualidade de vida.

Por Adailane Souza, Ana Célia Coelho e Monalysa Melo

“Ser mulher negra e quilombola é sinônimo de força e resistência”, afirma Carlene Santos, 22 anos, jovem moradora do Quilombo de Baixa Grande, em Muritiba. Ela reconhece o peso da luta que carrega em nome de sua ancestralidade. E destaca que a valorização da ancestralidade negra, a preservação cultural e identitária e a agricultura familiar são os elementos centrais para a sobrevivência do quilombo.

A agente comunitária e estudante de Ciências Sociais, Edna dos Santos, faz parte do movimento social da comunidade, o Coletivo Chico Véi, que deu um pontapé para iniciar o processo de reconhecimento da comunidade. Para ela a realidade de vida de ser uma mulher negra e quilombola é carregada de dificuldades. “Para nós, negros, existe o desafio de vencer todos os dias a barreira que nos é imposta. Quando se trata de ser mulher negra e quilombola, como no meu caso, já é um desafio de superação permanecer viva”, declarou Edna. Esta afirmação de Edna não difere de muitos relatos das pessoas da comunidade.

Patrimônio Cultural

Baixa Grande é marcada por uma cultura que envolve a questão da sobrevivência que é a agricultura familiar, constituída pelo cultivo de laranja, limão, feijão, mandioca, fumo, hortaliças, dentre outros. Grande parte dos moradores são adeptos do catolicismo. No mês de junho realizam trezenário em devoção a Santo Antônio. Destacam-se também na comunidade as tradicionais benzedeiras, que fazem rezas, em algumas dessas, usando ramos de plantas durante o ritual, pedindo cura das doenças e proteção.

A principal manifestação cultural que se destaca na comunidade é a capoeira. A estudante de história Creonice Araujo (conhecida como Manhosa), 32 anos, é instrutora de dois grupos de capoeira e, relata que sofre muito preconceito por estar ocupando um espaço que tradicionalmente seria função de homem.

“O grupo Arco-Íris é marcado, muitas vezes, pela discriminação, pois a instrutora é mulher e negra. Já houve várias tentativas para que esse grupo não existisse, já passei e continuo passando por discriminação e obstáculos, mas o meu desafio é seguir em frente”, declarou Manhosa.

Roda de capoeira com a instrutora Creonice. Fonte: Arquivo pessoal

A mulher quilombola não desiste fácil do que quer. Creonice tem uma paixão pela Capoeira. “Está no meu sangue, está na minha cor, no dia que eu deixar a capoeira, nesse dia deixarei de existir”, concluiu Manhosa. Outra manifestação cultural da comunidade é o samba de roda, fundado pelas mulheres do quilombo, como forma de preservar as raízes dos ancestrais. O samba de roda é uma arte implementada pelos negros africanos escravizados e que hoje seus descendentes praticam de forma original, podendo acontecer como uma comemoração no próprio dia a dia, tanto como encerramento de festividades religiosas.

Contexto sócio-histórico-cultural

No Brasil, os afrodescendentes representam mais de 50% da população. Esta presença negra é resultado do regime escravista que durou três séculos de muita injustiça. Segundo os dados do IBGE de 2018, a Bahia é o estado com maior percentual de autodeclarados pretos. Somando-se pretos e pardos (negros), chegava-se a 81,1% da população. Também a Bahia foi um dos lugares onde a resistência contra a escravidão aflorou com mais densidade, destacando-se as revoltas e fugas coletivas, resultando na formação de quilombos, que se constituíram em verdadeiros símbolos da luta pela liberdade. Atualmente, centenas de comunidades negras vivem espalhadas por todo o estado. O Remanescente de Quilombo da Baixa Grande, localizado no distrito de São José de Itaporã, zona rural de Muritiba, recebeu certificação quilombola há três anos pela Fundação Cultural Palmares.

Reunimos relatos de cinco mulheres da comunidade de Baixa Grande:

Edna Balbina dos Anjos dos Santos Agente de combate as endemias e estudante de ciências sociais

Edna Balbina dos Anjos dos Santos
Agente de combate as endemias e estudante de ciências sociais

“Quando iniciamos o processo de pesquisa na comunidade de Baixa Grande nosso primeiro desejo foi de que nossa comunidade se tornasse livre da opressão. O sistema racista que nos separa dos direitos se fortalece com nosso exercício de liberdade. Mas, temos que ter consciência de que não devemos desistir e que a vida dos povos tradicionais é sempre de luta. E, é assim que podemos garantir um passo a mais para as futuras gerações, assim como nossos ancestrais fizeram.”

 

Como é ser mulher negra e quilombola para você?

 

Catia Cristina da Silva Santos
Estudante do curso de licenciatura em história 

 

“Para mim, ser mulher negra e quilombola ultrapassa várias vertentes. Pois, além de ser um desafio é também uma experiência que nos mostra o quanto devemos batalhar por um lugar melhor na sociedade. Sentimos na pele o estigma do preconceito. Nossas lutas diárias são elementos fundamentais da representação do nosso lugar de fala, sobretudo no ambiente acadêmico, por lutas de permanência. Assim, ser mulher quilombola, intercala com a militância das nossas falas, nossos corpos, nossas raízes e nossas identidades.”

 

Como é a realidade das mulheres quilombolas e qual o maior desafio?

 

 

Luana da Silva dos Santos

Estudante de serviço social

 

“Apesar de muitas mulheres lutarem, estudarem e conseguirem conquistar seus objetivos, a realidade ainda é difícil. Não somos poupadas do racismo e do preconceito, ainda não desconstruíram esse papel da mulher negra ser vista como empregada doméstica ou dona de casa. Não importa o diploma, pois ainda que formadas e com empregos dignos, sempre somos perseguidas. O maior desafio é a nossa inserção na sociedade, a busca por nossos direitos, o acesso a políticas públicas, o combate ao machismo, e a luta de tentar desconstruir essa ideia de que o homem tem que estar à frente da mulher.”

 

Como é o seu protagonismo na comunidade?

 

 

Carlene Santana dos Santos
Estudante de ciências sociais

 

“Sou integrante do Coletivo Chico Véi, que fez a pesquisa na comunidade de Baixa Grande, buscando informações com os mais velhos para pedir a certificação junto à Fundação Palmares. Como coletivo, buscamos ações para a saúde das pessoas da comunidade, e para a educação, organizamos momentos com nosso povo, sempre buscando a valorização da nossa cultura.”

 

Como é a realidade das mulheres quilombolas?

 

 

Antonia Fernanda dos Anjos dos Santos
Formada em museologia

 

“A realidade das mulheres quilombolas é acordar cedo, ir trabalhar na roça e retornar para cuidar da casa. Muitas saem de sua comunidade para buscar emprego pela região, ou mais distante, porém, os serviços encontrados são de doméstica. Particularmente, não existe nenhuma que faça parte de meu convívio que já tenham sido aceitas para trabalhar, após colocarem currículo, nas lojas das cidades. Ainda que tenham capacidade e formação. Questões que favorecem críticas contra a realidade na qual vivemos e os espaços que nos colocam.” 

 

 

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