Discriminação com o cabelo crespo na educação

 O desejo em assumir o cabelo crespo se tornou cada vez mais forte, mas infelizmente o preconceito ainda prevalece na sociedade. Estudantes  da rede municipal e estadual de ensino sofrem cotidianamente com esse problema no meio educacional. 

Para além das questões relacionadas a autoestima e autoimagem, o preconceito se torna evidente com relação ao cabelo crespo. Por essas questões, muitas pessoas passam pelo processo de alisamento ainda na infância, principalmente meninas. Procedimento que pode ser até mesmo prejudicial à saúde.

As mães, na maioria das vezes, pelo fato de terem mais facilidade na hora de pentear o cabelo, submetem as filhas ainda pequenas a processos químicos. As crianças também buscam por processos químicos, uso de chapinha e escova progressiva, por sofrerem com apelidos por causa do cabelo crespo.

Em meio a tudo isso, existe a luta para desconstruir a carga histórica social que afirma a todo momento “o cabelo crespo é ruim”.

A falta de informação e conhecimento, muitas vezes contribuem para a discriminação e o preconceito .

Se olharmos para a ideia de assumir o cabelo como realmente ele é, existe ainda uma grande resistência em se tratando do cabelo negro. O processo de afirmação da identidade sustenta uma ideologia que contribui para um modelamento que fomenta e sustenta discursos de uma sociedade racista como o Brasil. Ou seja, o padrão de beleza define e molda comportamentos enraizados e vistos como ideais.

Atualmente os negros encontram dificuldades de todas as formas, em todos os lugares, ou até mesmo nas pessoas com quem convivem, ao assumirem o crespo. Seja crianças, jovens ou adultos, do sexo feminino ou masculino, de muitos convivem com o preconceito com relação aos seus cabelos.

A falta de conhecimento sobre cultura, raça, e etnia se torna um problema para o processo formador do cidadão. É na infância que o indivíduo inicia o processo de construção de sua identidade. Dessa forma a educação infantil deve ser vista como um caminho para formação social e um meio para desconstruir discursos que desqualifiquem o biótipo do outro, já que moramos em um país com diversidades culturais.

A nossa equipe visitou o Colégio Municipal Paroquial Dom Antônio Monteiro, da cidade de Cachoeira que trabalha com a educação infantil por parte do município e fundamental sob a responsabilidade do governo estadual. Durante nossa visita a instituição de ensino, alunos relataram atos de discriminação e preconceitos que já sofrem em relação ao cabelo.

Algumas meninas da escola Paroquial, relatou que muitas vezes são os meninos que mais colocam apelidos discriminatórios por causa do cabelo. E a maior parte, são negros.

Ludmila Ester, 11, é estudante do sexto ano, da Escola Paroquial. Além de sofrer com o preconceito com relação ao cabelo, ela ainda nos relatou que sofre com apelidos por causa do corpo. O uso de produtos  químicos chegou em sua vida, segundo ela, por não se sentir bem com o seu cabelo e por causa dos colegas que colam apelidos. Mesmo alisando, Ludmilla não fica satisfeita com o cabelo e para evitar piadas ela costuma sempre prendê-lo.

Em conversa com estudante foi possível perceber sua baixa auto estima. Discreta e com blusão, ela ainda nos relatou que sofre discriminação por causa do corpo.

Ludmila Ester conta sobre a discriminação que sofre no ambiente escola.

Michele Leite Santos, 8, também é estudante da Escola Paroquial Dom Antonio Monteiro, relata que gosta do seu cabelo, mas convive com a discriminação.

Isabel Cristina Reis, professora  do Curso de Licenciatura em História da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e doutora em História Social pela UNICAMP, explica que essas situações acontecem, porque as crianças aprendem através do convívio.

Segundo a diretora Inês Carvalho da Cruz, 45, que trabalha com a Educação Fundamental  por parte do município na Escola Paroquial Dom Antonio Monteiro, explica que, os funcionários e professores da instituição  recebem orientações  de como lidar com esse tipo de situação, mas nem sempre todos os casos chegam até à direção.

Considerando que a escola é o lugar onde se transmite conhecimentos e tem por obrigação aplicar a Lei nº10.639/03 que “estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. A professora Isabel Cristina Reis ressalta que quando surgiu a lei, os professores não tinham preparo para ensinar a disciplina.

Mesmo com dez anos de existência, a lei ainda não se consolidou nas escolas. Em Cachoeira ainda não há uma efetivação concreta dessa lei, segundo Marli Dias, assessora do secretário de educação do município, Gevaldo Santos, não há uma disciplina específica nas escolas que trabalhe apenas essa questão apresentada na lei. Mas a Secretaria de Educação está elaborando um projeto que implantará nas escolas municipais uma disciplina voltada para o estudo de História e Cultura Afro-Brasileira.

A professora Isabel Cristiana, explica, que o padrão de beleza branco visto como ideal, paralelamente desqualifica a estética afro. E fala que se as crianças crescessem em uma ambiente onde seus fenótipos fossem valorizados, elas respeitaram mais o próximo.

Mesmo em uma sociedade preconceituosa, o estudante do sétimo ano da Escola Paroquial Dom Antonio Monteiro,  Elbert Luis Evangelista, 13, decidiu assumir o seu black. Luciene Evangelista, 45, que é mãe  do garoto, ressalta que sempre apoiou seu filho em suas atitudes com  o seu cabelo e sempre o alertou com relação a discriminação que poderia sofrer a partir do momento que resolvesse assumir o seu cabelo. Segundo ela, mesmo com esses fatores mencionados  ele não se intimidou na hora de assumir seu crespo. E conta ainda que ele está amando o black.

O garoto Elbert Luis, mesmo ouvindo comentários maldosos, deixou seu cabelo crescer.

Fomos às Secretárias de Educação, de Ação Social e também ao Conselho Tutelar da cidade de Cachoeira, mas nenhum desses órgãos dispõem dados relacionados a discriminação nas escolas, ou até mesmo de forma geral na cidade. Ainda informaram, que esses casos raramente chegam até eles. 

Ainda no século XXI, a sociedade brasileira é bastante preconceituosa, racista e discriminatória. É preciso ter em mente que as crianças de hoje serão os adultos de amanhã, se não houver uma mudança na educação escolar e familiar, esses problemas permanecerão em nosso cotidiano. A professora e psicóloga Nilbélia Raposo afirma que “ Não existe uma formula mágica! A solução para acabar com o preconceito, o racismo, com a não aceitação de si mesmo, as diferenças sociais é uma só: a educação.”

 

Ilustração: Josuel Rocha 

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