Dossiê Transformações e Permanências

É noite e estou sentado no corredor do Colégio Estadual da Cachoeira. Ouço outro professor conversando sobre filosofia com os estudantes enquanto aguardo o início da aula. Relembro o meu dia e espero ansioso para iniciarmos o primeiro encontro de redação no curso popular pré-Enem do Quilombo Educacional Kabengele Munanga. É segunda-feira e estou impaciente andando em zig-zag pelo corredor vazio no último pavilhão do enorme colégio, localizado em uma das entradas da cidade: o bairro da Pitanga. Na sala, o professor de filosofia conta da dificuldade de ser um homem negro num mundo desigual, de dominação branca. Entre risos e um silêncio perturbador, a turma de 36 estudantes, em sua grande maioria de negros e negras de diferentes bairros de Cachoeira e São Félix, se reconhecem, não sem dor, nas palavras do colega e professor Valdir Alves.

Um cursinho, ou melhor: um Quilombo Educacional, não para tornar mais fácil, mas para nos encorajar a resistir, construir possibilidades e lutar por transformação.

Entro na sala junto da minha parceira, a professora Jessica Bruno, e é chegada a hora de acreditar e fazer crer. Escrever é, pois, acreditar e fazer crer. Porém, não se trata de uma crença que negue o quão mais difícil é a sobrevivência para os grupos minoritários politicamente dos quais fazemos partes, mas de uma crença como uma força e coragem que projeta algo, como quem esboça um caminho para um amanhã mais justo. Escrever e projetar, não necessariamente nessa ordem, poderiam ser as palavras-chaves do que propomos nesse curso de redação no Quilombo Educacional Kabengele Munanga. Através de imagens e leituras: escritas de luz. Mais do que contribuir na aprovação no Enem, possibilitar encontros transformadores e construir coletivamente novos caminhos.

Estamos agora na frente dos/as 36 estudantes. Nós somos olhados agora por olhos que projetam esperanças nas coisas que talvez já não tenham mais cor pra nós. Para começar, propomos a seguinte questão: “qual a história do seu nome?”. Perguntamos a cada uma ali e pedimos que escrevessem sobre. Tínhamos um plano de aula grande, que ia da discussão sobre o que é a Universidade até a produção textual sobre feminicídio. O tempo ali é outro, não por atraso ou letargia, muito pelo contrário: é outro pelo encontro perturbador com a diferença e com os sonhos que se tornam visíveis.

De um em um, vamos ouvindo histórias de antes mesmo de nascerem ou de logo quando chegaram a esse mundo. Entre ódios e amores aos seus nomes, confusões de grafia na hora do registro, relações de poder que fazem os pais em muitos casos darem ou mudarem os nomes na hora de registrar no cartório, eis que uma história insurge. Não algo sobre nascimento mas sobre abortar a contra-gosto vontades. Uma mão se ergue após as apresentações, alguém na roda tem algo a nos dizer que tinha esquecido. Além da história do nome, perguntávamos o curso que pretende fazer e em qual universidade. Ele nos conta: em 2014, depois de ter feito o Enem, inscreveu-se no Sisu e passou em História na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Mal pôde comemorar e um conselho em forma de ordem é emitido por sua mãe: “você não vai estudar lá [na UFRB], porque lá só tem louco”. Todos na sala se calam… A minha história volta e me revolto. Sou eu ali: o louco. Eu, negro, estudante da UFRB, colega dele e também professor naquele espaço. Sou eu e toda universidade nas sucessíveis negligencias em falar o que é e como se dá uma Universidade. Ali, naquela fala e naquele fato, está a Universidade que não quer dialogar com os outros saberes, mas também está uma UFRB diferente, com estudantes do Recôncavo e com projetos de encontrar com as pessoas através da pesquisa e da extensão. O estudante encerra seu relato dizendo que até hoje se arrepende por não ter se matriculado…

Que o hoje não passe mais desse dia e que nem os arrependimentos nem os preconceitos nos impeçam de seguir. A partir de agora, nesse texto, seguirei o rumo desse encontro e tentarei nas próximas linhas provocar uma conversa sobre: O que é mesmo a universidade? O que é mesmo a UFRB?

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Muitos preconceitos circundam e se assumem enquanto definição do que é a Universidade Pública. Certo que alguns são muito bem fundamentados e até podemos dizer que são reais. Mas o problema é encerrar o conceito no muro estanque que alguns desses preconceitos constroem. Talvez o mais batido, mas ainda difundido é a ideia de que a Universidade Pública seria paga. Acredito que esse seja um bom começo de conversa. Não, na Universidade Pública não se paga mensalidade, nem matrícula, nem anuidade… Ela é Pública e Gratuita. Mas é preciso não se enganar: existem uma série de gastos que todo o estudante tem ao entrar, nessa conta inclui xerox, livros, alimentação. E se pensarmos nos estudantes que vem de for a, essa conta tende a aumentar com gastos de moradia, transporte… Mas ela nem é toda gratuita, nem só gastos. Pausemos essa discussão ecônomica pra falar de aspectos tão importantes quanto.

A Universidade Pública tem como central um tripé acadêmico: ensino, pesquisa e extensão. Esses três vértices nos dizem, portanto, que toda universidade tem como obrigação o compromisso com a sociedade e o local que a circunda e a recebe. Que o em torno faz parte do dentro. Além disso, mais do que formar profissionais, a universidade pública tem de estar preocupada e atenta em formar cidadãos, em produzir conhecimentos que transformem e melhorem a vida de quem precisa, e intervir socialmente na busca de justiça social.

Para seguir nessa discussão, o exemplo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia é ideal para, inclusive redefirmos os parâmetros. Criada em 2005, dentro do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), a UFRB foi a primeira universidade do país a ter uma Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas e a aplicar integralmente a Lei de Cotas (LEI Nº 12.711) em 2012. Segundo dados divulgados em julhos deste ano, a UFRB que já tem 12 anos, mais de 12 mil estudantes, sendo que 91.5% são da Bahia, 83,4% autodeclarados negros e 82% vem de famílias com renda total de até um salário mínimo e meio.

Um dos campi da UFRB está localizado nas cidades de Cachoeira e São Félix, o Centro de Artes, Humanidades e Letras. O CAHL, como é chamado, tem dez cursos de graduação e três de pós-graduação.
Olhando o CAHL e o perfil de estudante da UFRB como um todo, tão importante como o acesso, a permanência se apresenta como uma categoria necessária. Permanência diz respeito a condicões tanto materiais quanto simbólicas de não só conseguir formar-se academicamente, quanto de poder construir a Universidade. Isso quer dizer que passa pela permanência auxílios financeiros, as chamadas bolsas estudantis. Passa pela permanência os currículos e salas de aulas mais inclusivas, constitui a permanência também as relações interpessoais, as acolhidas, a saúde do estudante, o poder estudar e poder produzir conhecimentos.

É nessa perspectiva que tem a permanência como base que sustenta o tripé acadêmico e a Universidade que o jornal laboratório Reverso lança o dossiê Transformações e Permanências, para discutir sobre a relação de estudantes entre si, dentro do ambiente acadêmico, mas também para refletir como se dá o diálogo com outros setores da comunidade. O mais bonito desse dossiê é como ele aponta e cartografa as nossas transformações, as da cidade e mesmo da cidade com a Universidade, nos mostrando que há muito o que avançarmos, mas que sem perder de vista o quanto as transformações necessárias estão acontecendo.

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Na matéria O Custo da Permanência, Bruno Leite, Cinthia Falcão e Diamila Rodrigues, mapeiam Cachoeira e São Félix na intenção de refletir sobre morar – condição fundamental para permanecer. Nas entrelinhas do texto, a necessidade de mais políticas da Universidade para garantir qualidade e mais quantidade na moradia oferecida pela UFRB. Emanuele Macedo e Sarah Sanches constroem também um mapa, mas um mapa afetivo através de perfis de cinco mulheres e estudantes do CAHL. Elas fazem cursos diferentes e juntas das repórteres nos lembram e reforçam que é preciso avançar enquanto universidade no diálogo com a comunidade e com os poderes locais. Mas elas nos lembram também que fazemos parte dessa comunidade e construímos aqui não só nossos aprendizados, mas construímos relações, sonhos… em suma, como o próprio título nos alerta “Entre chegadas e partidas, Cachoeira e São Félix também são lares”. Seguindo o caminho dos perfis, somos apresentados ao estudante de Jornalismo Carlos Augusto Santana, pelo texto de Silvoney dos Santos. Mais do que a Carlos, somos apresentados a uma luta de todo um grupo para construir formas de permanecer. O texto de Silvoney nos conta a trajetória de Carlos Augusto, desde as vivências em sua comunidade quilombola até a chegada na Universidade e a necessária criação do Coletivo de Estudantes Quilombolas da UFRB. No texto As paredes são as mesmas: as barreiras enfrentadas pelos alunos com deficiência no CAHL, Phael Fernandes e Giovanna Ramos, com suas fontes afirmam que é preciso transformar estruturas, arquiteturas, modos, para poder haver permanências qualificadas dentro da Universidade.

Iasmyn Gordiano, em sua matéria “Antes e Depois: Como mudou a vida dos estudantes do CAHL após ingresso na faculdade”, aponta para como a Universidade é por excelência um lugar de transformações, de diálogos entre as diferenças e descobertas. Na mesma linha, Victor Rosa mostra expectativas e anseios de lazer na cidade e na Universidade.  E por fim, o texto Jamile Novaes, um perfil do Baile pelo Certo, com um histórico do Cine do Povo e das ações do Coletivo M2. Ao fazer isso, Jamile se encontra com outros caminhos de permanecer, resistir, repensar e transformar realidades. Além disso, na história que nos conta e nos engajamentos de suas fontes, a jornalista nos mostra outras formas de diálogo e transformações na comunidade para além da Universidade.

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