Escrevendo vivências

 

Dessilenciamento de vozes afro-femininas: A escrita autobiográfica como registro histórico e mecanismo de liberdade

A ausência de representatividade na mídia às vezes nos coloca em uma situação desafiadora de ter que falar para outras pessoas que não tem espaço na grande mídia. Dessa maneira se faz necessário ser a voz em espaços que nos são negados. Escrever sobre o cotidiano, sobre experiências de vida e sobre vivências é algo delicado. Sendo assim ao encontrar apoio e meios para a difusão dessas informações os assuntos que desconstroem e libertam ganham cada vez mais espaço.

Por isso, ao escrever o perfil de alguém penso nas possibilidades que esse alguém possui para inspirar outras pessoas. Como seu modo de se comunicar e de agir poderá tornar o mundo mais agradável. Perfil não é biografia, perfil não é propaganda, perfil é história de vida. História de gente.

Andrielle Antonia dos Santos de Jesus, Mulher, Negra, Gorda e Feminista , é estudante de Licenciatura em Historia na Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus V. Residente do interior da Bahia, mais especificamente na cidade de Santo Antônio de Jesus. Nasceu em uma segunda-feira à tarde, dia 13 de Junho de 1994, data dedicada a Santo Antônio (Santo casamenteiro). Seu nome não é por acaso, na verdade seu pai escolheu Antonia como forma de homenagear o Santo. Sua mãe, que curiosamente chama-se Maria Antonia gostaria de batizá-la como Adriele Cristina, porém seu Edvaldo lhe registrou com o nome de Andrielle Antonia.

O seu arranjo familiar é composto por 4 mães. A mãe biológica a entregou para a avó quando ela tinha 8 meses de idade. Junto com a avó conviveu com uma prima mais velha e uma tia. Aos 18 anos voltou a morar com a mãe biológica. Ela também tem um irmão mais velho, que segundo ela é muito ciumento e afetivo: “O meu irmão (Téssio Marcos) costuma me mimar bastante, ele é carinhoso demais diferente de mim que não sou muito de dizer Eu te amo”. Para ele, a irmã ainda é uma menina, não essa mulher forte e empoderada.

Despi minha alma, meu corpo, minha intimidade. Tirei tudo, minha roupa, meu medo, e por fim, a minha armadura.(Andrielle Antonia)

Bianca Borges
Foto: Bianca Borges

Escritora por paixão e blogueira por carisma. Escrever, para ela, é como RESPIRAR. Começou a produzir textos para um grupo de dez amigas. O hábito se tornou algo importante e verdadeiro, fazendo com que suas amigas lhe pedissem para criar um blog. E assim, sem grandes expectativas, no dia 11 de Setembro de 2011 surge o Mais Íntimo que ao longo desses 4 anos vem adquirindo espaço e forma.

O Mais Íntimo surgiu inicialmente com intuito de alimentar um amor platônico, através de desabafos. Durante os anos de 2011 a 2013 sua escrita era reflexo do seu medo, fragilidade, insegurança: características que marcam a primeira fase do blog.

A saída da adolescência, a descoberta do sexo casual e do amor sem preconceito marca a segunda fase do Mais Íntimo que ocorre entre 2014 e 2015. Nessa fase as experiências ganham cenário, as possibilidades e a permissividade são colocadas em evidência. Com a maturidade adquirida à autora se permite experimentar novas situações, saindo da sua zona de conforto.

Atualmente, a autora abandona, parcialmente, o cenário romântico, e adentra um espaço que é seu, suas raízes. Mais lúcida e poderosa, ela se coloca como personagem principal da sua própria vida, história, escrita e vivência. Nessa fase não existe amor platônico ou super valorização de homem nenhum, pelo contrário, é definida e justificada pela palavra PODER. Ela, MULHER, NEGRA, FEMINISTA, GORDA assume que pode tudo, que é livre e dona de si e das próprias escolhas.

Ser gorda nunca foi um problema para mim. Nunca me senti menor por ter um corpo grande. O meu corpo nunca me fez mal algum. Ele nunca me causou nenhum constrangimento. Mesmo assim, as pessoas ao meu redor se sentem constrangidas. Percebo o incômodo e o olhar de desaprovação perante minhas curvas. Mas, isso não é um problema meu ou do meu corpo.(Andrielle Antonia)

Edgar Azevedo
Foto: Edgar Azevedo

Devido à falta de tempo a blogueira decidiu abrir espaço para colaborações e essas parcerias renderam ao blog postagens sobre moda, cinema, culinária, séries, músicas dentre outros assuntos. Andrielle segue desenvolvendo projetos paralelos. Em novembro de 2015 fez sua primeira oficina sobre o blog com intuito de discutir a influência e a contribuição das redes sociais na construção de uma escrita contemporânea. Costuma se envolver com ensaios fotográficos, pois para ela a fotografia é um mecanismo indispensável na manutenção do amor próprio.

Com um layout rico em detalhes, o Mais Íntimo acompanha o ciclo natural do empoderamento de Andrielle Antonia, e ao mesmo tempo marca o processo de dessilenciamento, ou seja, difusão de vozes afro-femininas através da escrevivência, termo criado pela escritora negra Conceição Evaristo.

Andrielle Antonia faz parte de uma geração que escreve sobre seu cotidiano e sua vivência. Como ela mesma disse em entrevista: “Eu sinalizo o meu lugar de fala: Escritora Negra”. Diferentemente de escritoras não negras, os relatos são caracterizados como ESCREVIVÊNCIA, pois possibilitam que as escritoras exponham o descontentamento, requerendo, através de suas obras, o direito de usar a própria voz para exigir um lugar como igual na sociedade. Para ela, estar distante dos grandes circuitos literários também é um estimulo a ser persistente e ao mesmo tempo reconhecer uma carência de representatividade. Subversiva, autentica e fora dos padrões, ela traz no seu corpo e na sua performance uma afirmação de identidade, força e resistência.

A escrita é um ato político de resistência, fortalecimento da auto-estima, enfrentamento do preconceito e afirmação de si.Se inspirar em histórias com características tão marcantes, é estar aberto a possibilidade de se reconhecer no outro. Como disse no início, escrever um perfil de alguém não é propaganda, é apenas um espaço que permite narrar exemplos de vivências que podem ser reescritas, mas não silenciadas.

 

Imagem da capa: Edgar Azevedo

Fique mais um pouquinho e ouça um playlist com canções que falam sobre amor, empoderamento e sentimentos bons. Inspire-se, cante, dance, sinta.

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