Expressão: liberdade ou prisão?

A liberdade de expressão no contexto da universidade realmente existe?

Catharina Arouca

A liberdade de expressão, um direito garantido por lei de acordo com a Constituição Federal de 1988, é uma promessa da Universidade. Na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, especificamente no Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), é um elemento de predominância desde sua implantação em 2006, devido à presença de cursos que exigem posicionamento crítico e discussão.

A universidade, com origem no latim “UNIVERSITAS”, carrega em seu significado a ideia de conjunto, comunidade, que demanda uma esfera democrática de espaço de fala e opinião. Nicolle Cajado, estudante de jornalismo, afirma que “a academia é um lugar de compartilhamento de pensamentos e desde que entrei na universidade, tive acesso a conceitos que não faziam parte da minha realidade e ainda outros que faziam, mas eram tabus. Estar nesse espaço fez com que eu pudesse compreendê-los e entendê-los”.

De acordo com uma sondagem feita pelo Reverso com um grupo de 72 pessoas do CAHL, 41% delas se sentem representadas dentro do diálogo universitário, através do espaço de fala contemplado e de líderes que vivenciam a realidade pessoal. O estudante Almir Ferreira aponta que a presença de coletivos estudantis é um marco importante de luta por mudanças e que a demanda cobrada por ele, o contempla e abrange seu espaço de fala. Além disso, a estudante Nicolle enfatiza que a fase do movimento feminista atual e a presença cada vez mais viva da voz feminina aumentam sua representação.

Ainda assim, inseridos nos espaços de fala, os estudantes se sentem oprimidos. Mesmo que a fala de grupos de liderança os contemplem, sua própria voz é silenciada através de outras. Os porta-vozes são, sem dúvida, uma expressão necessária e forte, mas seu radicalismo demanda uma ideia de superioridade que afasta outros alunos de mostrarem sua própria opinião livremente.

Dos 72 estudantes questionados, 46% não se sentem à vontade para falar sobre qualquer assunto no CAHL e 39% sinalizam que depende do assunto. Quando questionados sobre o porquê, motivos diversos aparecem. 59% sentem a opressão pelo próprio espaço acadêmico, a demanda de embasamento teórico que parece obrigatória, o contexto hierárquico de professores e colegas, além da demanda de conteúdo que parece distante da realidade. 27% sinalizam que seu silêncio é ocasionado pelos próprios colegas, 8% especificam que tal ato vem dos veteranos.

A estudante Natalia Figueiredo, acadêmica de jornalismo, explica: “Não me sinto livre para falar de qualquer assunto nem com professores, nem com alunos no Centro de Artes, Humanidades e Letras. Professores, porque costumam nos silenciar através do poder hierárquico construído e os alunos, porque costumam julgar e problematizar tudo ao extremo”. A resposta de Almir, consoante a dela, sinaliza que “o medo de opinar está no medo de sofrer algum tipo de exclusão posteriormente, pois minhas opiniões em alguns assuntos são bem diferentes das de algumas pessoas”.

Dessa forma, o direito à livre expressão é corrompido. O espaço de fala terceiriza uma expressão que nem sempre é consolidada como o desejado. Muitos estudantes se calam, sustentando sua opinião em porta-vozes, se omitindo de ocupar um espaço de fala disponível, por medo das consequências.

A universidade, que possui o contexto de universalidade, passa a ser então, um corpo desmembrado. Pois, as mãos decidem deixar o serviço de pegar materiais só para os dedos. A democracia, preceito básico da nossa sociedade, só contempla a parte que fala, pois o silêncio soa consciente.

A liberdade de expressão é o instrumento para o fim dos tabus, mas parece instalar mais um. Em maio deste ano, protestos foram realizados em diversas universidades dos Estados Unidos, em prol da verdadeira liberdade de expressão, que é a primeira emenda da Constituição do país. O receio era de que os estudantes tivessem passado a enxergar esse direito não como uma proteção de todas as vozes, mas como uma arma para construções políticas de poder.

A polêmica que tomava conta do ambiente acadêmico americano era ocasionada pelo medo de que a liberdade de expressão existisse através do silenciamento de alguns. No Brasil, ainda não é uma polêmica, mas é algo a se pensar. É dado o direito de falar, por que sentir o dever de calar-se?

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