Intervenções visuais do CAHL

A forma com que as frases foram grafadas tem também o objetivo de dizer que existem vidas no CAHL. Essa vida pulsante, com conflitos sociais que, inclusive, é reflexo de toda sociedade.” (Vinícius Zacarias)

Por Francisco Guedes

Nos dias 26 e 27 de novembro de 2015, aconteceu um movimento espontâneo, de alguns estudantes, para intervir nas paredes do CAHL – Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em Cachoeira – escrevendo frases de cunho político, subversivo e um tanto revolucionário que realmente viesse a confrontar esse imaginário conservador e que a cada dia vem sendo consumido pelo senso comum.

São denúncias que se baseiam em opressões ligadas ao sexismo, ao machismo, ao racismo, à homolesbobitransfobia, e até mesmo, à forma com que é feita a ciência, de como ela é trabalhada pelas universidades e suas relações políticas.

Seis meses se passaram e as frases continuam sendo discutidas dentro da comunidade acadêmica e causando muita polêmica. Alguns repudiam o ato e relaciona ao vandalismo e as classificam como pichações ou poluições visuais. Para outros, são manifestações políticos naturais que fazem as pessoas refletirem seus comportamentos dentro da sociedade.

Todas as frases grafadas têm o intuito de denunciar e enfrentar as opressões afligidas por grupos hegemônicos. E o impacto que causou na comunidade foi de um susto imediato. Provocou uma surpresa, uma inquietação, uma repulsa, uma vez que acabou tocando em pontos que, para a sociedade são considerados polêmicas, mas para os interventores não passam de verdades que não são problematizadas na vida cotidiana, elas sempre são introduzidas de forma naturalizada nas pessoas.

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Foto: Caique Fialho

Para os estudantes que se manifestam a favor, a maneira com que as frases foram colocadas, no fundo, teve seu efeito surtido, pois, ainda que o Centro tenha emitido notas desaprovando as ações empreendidas nas paredes ou que elas tenham sido classificadas de pichação, poluição visual e até mesmo de vandalismo por alguns grupos, para os realizadores, o incômodo que tudo isso causou está sendo o objetivo central dessas intervenções, porque elas estão trazendo reflexões para que os opressores e preconceituosos repensem suas atitudes.

O museólogo Vinícius Zacarias, 23, rebate essas atitudes e diz que as pessoas que têm usando o termo pichação, poluição visual ou vandalismo para classificar essas denúncias, ainda que as frases tenham também um cunho artístico, elas utilizam para desqualificar algo que no fundo mexeu com ela. “Ora, pichações também são atos políticos. As pessoas picham porque querem manifestar algum tipo de posicionamento político e é isso o que deve ser levando em conta”, disse ele.

Então, o que está incomodando não está sendo o fato das paredes estarem grafadas, são as frases nelas contidas. Ou como diz Jesus Junior, 21, estudante de história: “Talvez se os estudantes pintassem flores e corações as pessoas achariam lindos, mas como são denúncias sociais logo veio o incômodo.” E reforça dizendo que “os incomodados estão levando muito mais em conta a estética das paredes brancas, que remetem a manicômio, do que o colorido que foram colocados.”

Entretanto, essas frases são tidas como positivas pelos manifestantes, dado que as pessoas começaram a se rebelar contra essas naturalizações opressoras que estão costumados a vivenciar. Não é positivo porque essas opressões existem e elas precisam ser denunciadas de alguma forma.

Veja algumas das frases grafadas nas paredes do CAHL.

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Imagem da capa: Caique Fialho

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