Letra de canção que critica a conduta do ensino básico no Brasil é pauta de discussão

Professores e alunos de instituições públicas e privadas comentam sobre os métodos de ensino básico no país, tendo como base as vivências em colégios do Recôncavo baiano.

Por: Clara Lins e Fellipe Moreira

Foto: Clara Lins

Nelson Mandela já dizia que a educação é a arma mais poderosa que se pode utilizar para mudar o mundo. Frase dita há muito tempo, mas que é atemporal. Apesar da mudança das gerações, o método de ensino no Brasil parece ser vitalício. No Recôncavo da Bahia, não é diferente. A canção ‘Estudo Errado’ de Gabriel o Pensador foi ouvida por alguns alunos e professores da região, tornando-se peça fundamental para uma discussão voltada aos métodos de ensino, e de possíveis soluções para problemas com a educação básica.

A música do compositor carioca não se restringe apenas ao local de onde ele veio. É uma crítica social ampla que se expande pelos quatro cantos do país. Por que há tanto medo de se entregar o boletim? Tirar dez é sinônimo de aprendizado? ‘Decoreba’ é o método de ensino? E por que insistir nas mesmas aulas dadas há décadas atrás? O modo da avaliação é refletido no aprendizado e nas notas do aluno? Essas e outras indagações foram absorvidas e comentadas por alunos e professores de instituições públicas e privadas.

¨Eu ‘tô’ aqui pra que? Será que é pra aprender?¨

Karolayne Souza, 19 anos, está concluindo o ensino médio no Instituto Federal da Bahia (IFBA), em Santo Amaro. Ela concorda com todas as proposições da música e enxerga o sistema como uma ditadura, transformando os alunos em seres não críticos e sem autonomia de pensamento. Para ela, os professores tem um papel fundamental, e a metodologia influencia bastante no desempenho e na motivação do estudante. O sistema escolar só pressiona a pessoa a tirar boas notas, não se preocupa com o real aprendizado. Os pais cobram muito sem, às vezes, atentarem ao real interesse dos filhos. ¨Somos seres humanos, dotados de vontades, desejos peculiares e particulares. Eu não preciso fazer faculdade para ser bem sucedida. É uma escolha que deve ser levada em consideração a classe social a que pertence¨, disse. 

Arquivo pessoal | Karolayne e colegas em uma aula de química, no IFBA, Santo Amaro

¨Se houver professores com métodos arcaicos, isso apenas irá repelir os alunos. Caso seu método de ensino seja adequado, fará com que o aluno se torne cada vez mais atencioso e empolgado em aprender¨, comentou Alberto Macêdo, estudante do terceiro ano do ensino médio do Colégio Simonton, em Cachoeira. Ele concorda com as ideias da canção, e relata que a escola é um local para cumprir regras e alcançar notas. ¨O que importa não é o conhecimento, e sim o alcance das médias¨. 

¨ Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi… ¨

Ronald Lima, 17 anos, estudante do Colégio Estadual da Cachoeira (CEC), comentou que a música expõe a realidade brasileira. Para ele, há uma pressão muito grande da escola, e, principalmente dos pais para tirar as notas, afetando o psicológico do estudante. ¨Achei uma letra muito boa, que expõe muito bem a realidade do ensino. Sempre há a aflição dos alunos mediante a pressão psicológica exercida pelos pais¨, disse. 

Ser formado não é sinônimo de aprendizado para Rodrigo Freitas, 20 anos, também estudante do CEC. ¨Na verdade, muita gente se forma no ensino médio, mas não sabe nada¨. Há uma sensação de mecanismo aliado a ‘decoreba’ que prende o aluno. ¨A gente deveria estudar para tentar se encaixar em uma profissão no futuro. Tem conteúdos dados em sala de aula que nunca iremos usar, nem tudo é necessário¨, finalizou. 

Eu ensino errado?

Alguns professores também entraram nessa discussão. Deibitih Brito, que leciona história, filosofia e sociologia para alunos do ensino público e privado, concorda com a exposição das críticas da canção em evidência. O sistema robotiza os alunos. Se ele pudesse, nem realizaria provas escritas, pois são muito mecânicas. ¨Eu gosto de trabalhar com pesquisa. Meu método seria fazer com que o aluno fosse descobrindo as coisas por ele mesmo¨, disse. Deibitih comentou também sobre a falsa impressão que as pessoas têm dos docentes do ensino público, como se eles não levassem o ensino a sério. ¨Meu esforço no colégio particular é o mesmo do público. Procuro fazer com que o aluno saiba que ele pode conseguir as coisas, vencer as dificuldades¨.

Arquivo pessoal | Deibitih em apresentação de TCC na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)

Além dos métodos de ensino tradicionais e ultrapassados que são a pauta de discussão, é importante também, a disposição dos professores em dialogar com os alunos, e não só passarem os conteúdos programados. Deibitih relatou uma história marcante vivida dentro da sala de aula que se relaciona com isso. Ele foi dar aula sem ter dormido bem, atarefado com muitas leituras e atividades. A turma estava conversando demais durante a explicação, e ele, já nervoso por não ter descansado, reclamou com os estudantes e alterou o tom da voz. Uma aluna que também estava nervosa respondeu com petulância. Deibitih estava se encaminhando à diretoria para pedir providências, mas desistiu. ¨Chamei ela para conversar, e me desculpei por gritar. No final, terminamos abraçados e chorando. Ela tinha vindo de uma situação tensa, havia brigado com os pais de manhã cedo. Foram dois choques de mundo. Ali, eu percebi que tenho que maneirar a minha conduta. Muitas vezes os alunos chegam muito fragilizados, e que só tem o apoio do professor para incentivar, dar uma palavra de carinho. Isso me marcou positivamente¨, finalizou. 

¨ O problema é que sem motivação a gente enjoa… ¨

Geralmente, as disciplinas que envolvem cálculos são as que mais geram medo nos estudantes, segundo o relato dos mesmos. Este método obsoleto acaba desestimulando. Caso haja uma nota ruim, é taxado como incapaz, e isso afeta o seu rendimento. Para a professora de exatas, Larissa Silva, há maneiras de se trabalhar para que o aluno fique estimulado. ¨Desenvolver algumas brincadeiras, procurar levar maneiras mais visuais da utilização da matemática no cotidiano. É necessário muito diálogo. É preciso procurar o problema da desmotivação¨, disse. Larissa só faz provas escritas por exigência das instituições, e reconhece que as notas não refletem a capacidade ou o aprendizado do aluno. Muitos podem colar nas avaliações e tirarem nota máxima, mas aprenderam? Outros podem saber, mas fatores externos talvez possam atrapalhar na hora da realização da avaliação escrita. 

Aula prática de geometria do segundo ano do Colégio Estadual Antonio Joaquim Correira, Capoeiruçu

Métodos de inclusão, atividades em grupo, seminários, aulas experimentais para auxiliar a dedução das fórmulas, contexto histórico das disciplinas, aulas com uso de vídeos do YouTube, maquetes, apresentações de temas da realidade, são as principais formas que a professora de matemática e geometria Leila Maria utiliza com seus alunos em rede pública. Ela se atenta também ao estado psicológico dos estudantes. Procura conversar com eles antes e depois das aulas, observar suas atitudes, a linguagem, diversidade de ideias, cultura, e crenças: ¨Preciso estar atenta aos gostos, gírias, maneiras de se expressar. A falta de participação familiar dificulta o atendimento particular dos alunos com mais dificuldade na escola¨. Leila costuma incentivar os alunos também com a realização de paródias de canções atuais com o conteúdo nas letras.

(Arquivo pessoal | Leila acredita que a educação é a principal forma de transformar a sociedade)

¨ Mas o ideal é que a escola me prepare pra vida… ¨

A educação finlandesa é citada por Wilson Badaró, professor de língua estrangeira, história e filosofia, como exemplo de excelência. Ele relata que o sistema lá é reconhecido internacionalmente. ¨O sistema se desenvolve visando oportunizar a todos aqueles que se submetem aos seus processos uma equidade visível não apenas no quesito cidadania e politização, mas, sobretudo, um passo a passo possível para todos os pleiteantes¨. Badaró comenta que não tem métodos pré-estabelecidos para lidar com seus alunos. ¨O ideal é sempre perfilar as turmas e adequar as ações de acordo com as necessidades e especificidades de cada grupo discente¨. Wilson comenta que ações lúdicas são de grande importância para estímulos.

Arquivo pessoal | Wilson lecionando inglês, Colégio Simonton, Cachoeira

Ele relata que há diversos motivos, aparentes, e mais abissais do que se pode imaginar que influenciam na desmotivação do estudante. Como a forma cognitiva, quando o aluno dispõe de dificuldades visíveis de aprendizado que são de origem mental. Físicas, quando se acredita que sua constituição atrapalha seu rendimento não apenas na educação física, mas impacta diretamente em sua autoestima e motivação para fazer coisas. Sentimental, que pode gerar e desenvolver bloqueios de origem familiar, passional, nos níveis mais próximos da adolescência. Em fatores econômicos, exemplificados nas dificuldades financeiras enfrentadas pelo aluno e sua família que impedem que o mesmo se sinta digno. Culturalmente, que pode se manifestar no campo da religião, quando o aluno pode ser discriminado pela crença que professa, pelo lugar que reside e que dispõe de uma forma de viver diferente dos demais estudantes. Também, na questão comportamental, ele age de forma diferente de seus colegas, tem uma sexualidade diferente, veste-se diferente, e influencia no seu estímulo. 

As problemáticas propostas pela canção trouxeram um consenso entre os professores e alunos envolvidos na discussão. A educação como base de tudo, deveria ser melhorada gradativamente. É feita uma grande reflexão embasada na letra da música. Aliado ao título da mesma, os personagens se questionam. Alunos estudam errado? Professores ensinam errado? O sistema está errado? Os pais estão errados? 

Dentro da música, há um personagem principal da história representando um aluno que faz todo o desabafo. Após toda a exposição das críticas, a professora reconhece que o estudante diz a verdade, mas manda ele se calar, pois, a sua emissão pode gerar problemas no seu trabalho. A partir disso, há uma preocupação quanto ao ciclo que se repete, e não se resolve. Surge um entendimento de que se precisa melhorar, mas existe uma força maior que não permite. Utilizando como exemplo o último diálogo da letra da canção, se o professor lutar por isso, é demitido. Dito isso, como haverá progressos na educação?  

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