Meninas, vamos jogar?

Cada vez mais mulheres se aventuram nos videogames, hoje já são 53% do publico brasileiro que joga. Embora essa crescente seja recente, elas já fazem parte desse mundo a muito mais tempo do que a maioria imagina.

O primeiro console da história, o Magnavox Odyssey 100, em agosto completará 44 anos de lançamento. Ele é considerado um marco na indústria dos videogames, pois deu o pontapé inicial à criação dos consoles caseiros , ou seja, os vídeo games que são vendidos para o uso doméstico como os famosos Playstation 2 e Super Nintendo. Percebe-se então que os vídeos games estão no dia a dia das pessoas a décadas, porém, muitos preconceitos ainda rodeiam esse brinquedo. Aliás, vídeo games são realmente simples brinquedos? Está aí um desses dogmas que parecem que não saem da década de 70. Thífani Postali diz no seu artigo intitulado O vídeo game não é mais brinquedo que “os jogos digitais não podem ser considerados brinquedos, já que as mudanças são visíveis, desde o público que os consome até a construção dos produtos. Os jogos passaram a ser vistos como uma nova mídia que, tão promissora, despertou o interesse das indústrias de publicidade, cinema e editoria.” Para se tiver ideia de quão grande e rentável é essa indústria,segundo dados da Newzoo, que é uma firma de pesquisa de mercado, os usuários deveriam gastar cerca de 91 bilhões de dólares em jogos em 2015, enquanto gastariam “somente” 39,1 bilhões com cinema, de acordo com dados da pesquisa da PwC.

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Ásia domina esse mercado bilionário dos vídeo games.

Comprovadamente os vídeo games hoje também são protagonistas no mercado de entretenimento e despertam interesse de cada vez mais pessoas, dos mais diversos tipos e não um publico especifico como muita gente pensa.  Segundo uma pesquisa do instituto Pew, 60% dos entrevistados acreditam que videogames são coisas de homens, embora essa mesma pesquisa tenha chegado a conclusão que se aproximadamente 50% dos homens jogam, 48% das mulheres afirmam fazer o mesmo.

 Ele ou ela?

Em 1986 o mercado de games estava aquecido, muitas pessoas queriam mais desse mundo novo de interatividade e tecnologia. Nesse mesmo ano diversos jogos estreavam e iniciavam franquias que a partir dali viveriam para sempre nos corações dos gamers. Alex Kidd In Miracle World, The Legend Of Zelda e Dragon Quest são exemplos de games que apareciam pela primeira vez naquele ano. Porém, um outro jogo também nascia. Em 6 de agosto de 1986 era apresentado ao mundo o jogo Metroid. Ao contrário dos outros jogos listados, nada de mundos coloridos e musicas alegres, pelo contrário, só havia espaços escuros, planetas devastados e um estranho sentimento de solidão até então nunca vistos. O jogo foi um sucesso mas além dos gráficos bonitos, desafio, diversão e outras qualidades, uma surpresa a mais chamaria a atenção de muitos. Logo após vencer o chefe final, uma animação pegava muitos de surpresa:

Sim, aquele protagonista que nos acompanhou em nossa aventura, aquele protagonista que era forte e determinado não era “aquele” e sim “aquela”. Samus Aran era o nome dela. Como foi contado através dos jogos que foram lançados depois, ela não tinha sido raptada e esperava de forma indefesa algum homem salvá-la mas era na verdade a única sobrevivente do seu planeta e foi criada por uma raça alienígena de nome Chozo. Sua personalidade, inicialmente, era de uma mulher mais endurecida pela sua condição, sobrevivendo em um planeta destruído, sendo muitas vezes fria e calculista.

Ok, agora temos mulheres nos jogos, mas como são apresentadas?

Em 1987 a então não tão famosa produtora SNK lançava um novo game chamado Athena, com protagonista do mesmo nome. Jogo que misturava ação, plataforma e RPG. Depois do sucesso da Samus, era imaginável que outras protagonistas femininas viriam, porém, a o jogo da Athena era um tanto estranho. O jogo já iniciava com ela abrindo uma porta que não deveria e caindo num mundo de fantasia. O “curioso” dessa cena era que enquanto ela caía nesse mundo ela perdia sua roupa e o jogador iniciava sua aventura com a mesma vestindo apenas um biquíni vermelho.

(Tudo bem que durante a queda o vestido subisse um pouco, mas sair por completo? Ela não poderia lutar vestida?)

Um costume da época era os jogos terem diferenças entre as capas japonesas e norte americanas.

(Capa japonesa do joga Athena.)
(Capa japonesa do joga Athena.)
(Capa Americana do game Athena. Foto reprodução)
(Capa Americana do game Athena. Foto reprodução)

Um problema que surgiria então, mais até do que mulheres sendo retratadas somente de forma indefesa, seria as mulheres sendo retratadas somente de forma sexualizada. Vale lembrar que o jogo Athena foi um sucesso de vendas e a fez uma personagem forte da SNK. Hoje ela faz parte do jogo de luta The King Of Fighters.

Athena no jogo The King of Fighters, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2016 e disponivel exclusivamente para Playstation 4. Foto divulgação SNK)
(Athena no jogo The King of Fighters, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2016 e disponivel exclusivamente para Playstation 4. Foto divulgação SNK)

Jogar com o Mario é legal, mas vocês já experimentou jogar com a Lara Croft?

Dez anos após a primeira aparição de Samus, em 1996, outra heroína surgiria para revolucionar mais uma vez a indústria dos games. Em 1993, a empresa Core Design estava começando a desenvolver um novo jogo e quando a proposta do game foi apresentada, era mais do que certo que o protagonista seria um homem pois teria inspiração no personagem de filme Indiana Jones. Em uma entrevista disponibilizada no making off de um dos jogos, o criador da Lara, Toby Gard, afirma que naquela época, em jogos de luta, muitos jogadores escolhiam as personagens mulheres por talvez sentirem um sentimento de proteção por estarem jogando com alguém que não “eram eles” (Gard afirma saber que naquela época os jogadores em sua grande maioria eram homens). Esse teria sido um dos principais motivos em escolher uma personagem feminina como protagonista. Definido a protagonista, o jogo Tomb Raider, seria distribuído pela Eidos 3 anos depois e viria com uma arqueóloga aventureira como protagonista: Lara Croft.

Ao contrário do Metroid, você guiava uma “mulher vestida de mulher” desde o começo da campanha. Lara foi feita para ser uma garota forte e sensual, porém, embora seu sucesso tenha aberto portas para outras personagens femininas aparecerem nos jogos, a sua sexualidade acentuada gerou algumas criticas. Existe uma versão que tenta explicar os seios super avantajados da personagem: erro de programação. É dito que um programador acabou por engano aumentando demais as suas medidas. Quando foi lançado Tomb Raider 2, Lara continuava com as mesmas medidas do primeiro.

No ano 2000 foi feito um filme baseado no jogo que teve a sexy simbol Angelina Jolie no papel da protagonista, o que fez sua popularidade aumentar ainda mais mundialmente, mas sua sexualidade começou a ofuscar suas outras características.

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(Lara Croft no seu jogo de estreia disponível para Sega Saturn, Playstation e MS-DOS com seus desproporcionais seios, 1996. Imagem divulgação/Sony)

 

(Em 2008 e muitos jogos depois, Lara continuava com sua sexualidade acentuada. Game Tomb Raider: Underworld disponível para Playstation 2, Playstation 3, Wii, Nintendo DS, XBOX 360 e Windows. Foto reprodução)
(Em 2008 e muitos jogos depois, Lara continuava com sua sexualidade acentuada. Game Tomb Raider: Underworld disponível para Playstation 2, Playstation 3, Wii, Nintendo DS, XBOX 360 e Windows. Foto reprodução)

Em 2013 a série teve um reboot (nova produção que ignora os títulos anteriores e reconta uma história do zero) e com um visual mais frágil e moderno. Chamado de Tomb Raider 2013 o jogador passa a acompanhar a evolução física e psicológica da personagem que passa de uma menina doce (Lara chega a chorar quando precisa matar o primeiro animal em sua vida) a uma grande sobrevivente. Em 2015, com o lançamento do segundo jogo pós o reboot da série, Rise Of The Tomb Raider traz uma Lara Croft mais madura, inteligente, confiante e corajosa.

(Após o reboot da série, Lara aparece menos erotizada e com maior foco no seu desenvolvimento. Game Tomb Raider disponível para Playstation 3, Xbox 360 e Windows. Foto Divulgação, Square Enix)
(Após o reboot da série, Lara aparece menos erotizada e com maior foco no seu desenvolvimento. Game Tomb Raider disponível para Playstation 3, Xbox 360 e Windows. Foto Divulgação, Square Enix)

As pioneiras

Mulher desenvolvendo jogos é tão antigo quanto os próprios jogos. A primeira mulher desenvolvedora foi a Carol Shaw, onde iniciou trabalhando no game Polo em 1978, jogo este que foi feito para uma campanha promocional da Ralph Lauren, porém, o mesmo não chegou a ser lançado. Oficialmente seu primeiro jogo lançado comercialmente foi o 3-D Tic-Tac-Toe, em 1979. Anos depois ela passaria a entrar no time da Activision, onde em 1983 desenvolveria seu game mais conhecido: River Raid.

 

(River Raid ganhou diversos prêmios e foi considerado por muitas revistas como o melhor jogo de 1983. Foro reprodução Vintagicompunting.com)
(River Raid ganhou diversos prêmios e foi considerado por muitas revistas como o melhor jogo de 1983. Foto reprodução Vintagicompunting.com)

Roberta Williams

Outra mulher com absoluta influencia e importância na história dos vídeo games é a Roberta Williams. Além de co-fundadora da Sierra Online (atual Sierra Entertainment), é conhecida mundialmente por ter escrito King’s Quest em 1984. Roberta é considerada a jogadora mais influente do seu tempo.

(Foto Reprodução/Lainenooney.com)
(Foto Reprodução/Lainenooney.com)

Mulheres desenvolvendo jogos

Em 2005, na conferencia Mulheres e Games, Ernest Adams, especialista no setor e fundador da Associação Internacional dos Produtores de Jogos, afirmava que estava tudo pronto para uma explosão de mulheres na área. Mais de 10 anos depois, temos um cenário que embora ainda não seja o ideal, de fato melhorou bastante. Já temos mulheres com cargos de extrema importância na indústria, como as seguir:

Any Hennig

Com contribuições em projetos como Michael Jordan: Chaos in the Windy City e Legacy of Kain; além de passagens nas empresas Nintendo e Crystal Dynamics, estando atualmente na Naughty Dog; hoje ela é uma das responsáveis por dirigir e roteirizar umas das franquias mais importantes e amadas dos gamers: Uncharted.

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(Anny Hennig ao lado de Drake, protagonista da franquia Uncharted. Reprodução CriticallHits.com.br)

Rhianna Pratchett

A franquia Tomb Raider além de inserir uma mulher como protagonista também teve mulheres no seu desenvolvimento. A Pratchett foi uma delas, roteirizando alguns jogos da franquia, além de ser autora dos quadrinhos Tomb Raider: The Beginning com a Dark Horse e minisséries de Mirror’s Edge com a DC Comics. Rhianna tem contribuído para vários livros sobre jogos e narrativa incluindo o “Professional Tecnique for Video Game Writing”. Ajudou a roteirizar também outros games bastante conhecidos como Prince of Persia e Thief.

(Rhianna é uma das responsáveis por essa nova fase da Lara Croft)
(Rhianna é uma das responsáveis por essa nova fase da Lara Croft)

Lucy Bradshaw

Mente por trás de da franquia The Sims (com vendas superiores a 100 milhões de cópias) e Sim City, Lucy também foi vice-presidente sênior da EA por 23 anos, até se desligar no ano de 2015. Também já trabalhou na LucasArts Entreteniment supervisionando jogos como The Dig, Secret of Monkey Island 2 e Rebel Assault. Em 2008 foi honrada como uma das mulheres mais influentes em tecnologia pela revista Fast Company.

(Montagem onde a Bradshaw aparece com o símbolo característico dos Sims (personagens do jogo The Sims) na cabeça. Foto: Jim Merithew/Wired.com)
( Foto: Jim Merithew/Wired.com)

Kim Shift

Kim e um grupo de colegas estavam desenvolvendo um jogo e resolveram apresentar à desenvolvedora Valve. O projeto foi tão bem aceito que o próprio Gabe Newell (co fundador da empresa) foi pessoalmente ao encontro de Shift e seus colegas para contrata-los e dar suporte a criação deste game. Em 2007 o mundo conheceria esse ousado projeto: Portal. Game que foi aclamado pela critica gamer em todo o mundo. Kim foi líder da equipe no desenvolvimento assim como foi a designer de nível. Outro grande jogo da Valve que foi liderado por ela foi Left 4 Dead e Left 4 Dead 2. Em 2009 Kim deixou a Valve e se juntou a Airtight Games onde juntamente com a desenvolvedora Square Enix liderou a equipe que desenvolveu Quantum Conundrum

(Foto: Lindsey Wasson/The Seattle Times)
(Foto: Lindsey Wasson/The Seattle Times)

Kiki Wolfkill

Já atuou como diretora de arte na Microsoft Studios, trabalhando com desenvolvedores de jogos famosos da plataforma Xbox como Forza Motorsport, Gears Of War e Mass Efect. Atualmente é produtora executiva de um dos estúdios maios importantes da Microsoft: 343 industries. Estúdio responsável pela maior franquia da empresa, Halo. Wolfkill além de desenvolver os jogos Halo 4 e Halo 5, ela tem sido responsável pela abrangência da marca com romances, quadrinhos, uma série web e uma série live-action que será produzido por Steven Spielberg

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(Hoje Kiki é um dos grandes nomes na área de games da Microsoft. Reprodução/Veja.com.br)
(Hoje Kiki é um dos grandes nomes na área de games da Microsoft. Foto: Danilo Tafuri/VEJA)

E no Brasil?

Se alguém se sentiu surpreso com os números norte americanos, os números brasileiros vão dar um game over ao preconceito. Segundo a pesquisa Game Brasil 2016, do publico brasileiro que joga games no Brasil, aproximadamente 53% são mulheres. Em 2013, esse número era de 41%.

(Reprodução/Pesquisa Game Brasil 2016)
(Reprodução/Pesquisa Game Brasil 2016)

Essa crescente já é perceptível. É cada vez mais frequente o número de mulheres em salas online e em fóruns de discussões sobre o assunto. Na maior feira de games da América Latina, a Brasil Game Show (BGS) 2015, o organizador Marcelo Tavares listou dois motivos básicos para o maior interesse feminino: “Os enredos estão cada vez mais elaborados, com imersão maior dos jogadores. E a mulher gosta de histórias assim, que acompanham uma personagem. E outro motivo é a diversidade de plataformas, como Youtube, jogos em celular. Isso também as aproximou dos jogos”. No mesmo evento, o Diretor de Marketing da Warner Bros Games, Cleyton Oliveira, afirmou não acreditar que exista um conteúdo masculino ou feminino nos games, “todos os conteúdos eles são pra ambos os sexos e vai muito mais do gosto da pessoa querer jogar”.

Quanto à representação das mulheres nos games, há uma pequena discordância entre as pessoas, mas há um consenso em que as coisas vem tido uma melhora. “Hoje a representação feminina nos games aumentou e melhorou em qualidade, mas ainda temos muito que caminhar, especialmente em questões de variedades de corpos, etnias e orientação sexual”, afirma Cecihoney, pixel artist que trabalha com games independentes e é parte do site Minas Nerds (a conheça mais no box “Mulheres trabalhando em games no Brasil”), “eu como mulher trans lésbica não me sinto representada  nesses aspectos”, conclui. Já para Daiana, dona do canal no Youtube Daiana GM, acredita que já há uma variedade de personagens femininas “desde as bonitas, gostosas, fortes, magricelas, inteligentes e por aí vai”, afirma.

No canal de Daiana que já conta com mais de 50 mil inscritos ela aborda sobre games em geral, incluindo trailers e gameplays.)
(No canal de Daiana que já conta com mais de 50 mil inscritos ela aborda sobre games em geral, incluindo trailers e gameplays.)

As desenvolvedoras procuram sempre aumentar o grau de imersão dos jogadores nas partidas e o que demonstra isso é a personalização cada vez maior nos personagens: altura, peso, tipo de cabelo, expressões faciais, entre outros atributos já podem ser customizados pelos players na grande maioria dos jogos, porém, nem todos que disponibilizam essa personalização permitem a escolha do sexo dos personagens.

(Embora não interfira no gameplay, o jogo Fallout 4 permite você criar personagens tanto masculino, tanto feminino. Foto Divulgação/Bethesda)
(Embora não interfira no gameplay, o jogo Fallout 4 permite você criar personagens tanto masculino, tanto feminino. Game disponivel para Playstation 4, Xbox One e Windows. Foto Divulgação/Bethesda)

 

(South Park: The Stick of Truth é um exemplo de game no qual você só pode utilizar personagens femininos. Captura de imagem diretamente do jogo, versão PC.)
(South Park: The Stick of Truth é um exemplo de game no qual você só pode utilizar personagens femininos. Game disponível para Playstation 3, Xbox 360 e Windows. Captura de imagem diretamente do jogo, versão Windows.)

 

“Claro que já teve jogo que eu já quis criar uma mulher e não teve como, mas isso só durava ali na hora de criar o personagem (…) mas vou te dizer que em alguns jogos mesmo com essa opção eu já escolhi jogar com personagem masculino. Porém, seria melhor se todos os games com criação de personagem dessem a opção do personagem feminino”, avalia Daiana. Para Ceci, a falta de personagens femininos podem até a afastar do game em questão “mesmo quando existem personagens masculinos que me agradem, a falta de opção feminina me soa impositiva”.

Com números de mulheres jogadoras cada vez mais expressivo, já há uma grande aceitação do publico masculino, coisa que há alguns anos atrás gerava estranheza.“Em minhas experiências quase sempre os meninos ficam surpresos e felizes por terem uma menina jogando, mas se eu vejo que pode rolar algum tipo de desconforto por eu ser mulher eu mesma já faço algo”, diz Daiana. Porém, ainda há problemas, como por exemplo o assédio, como afirma a Ceci “talvez por se trans a surpresa não é tão comum- em função de não ser considerada mulher ‘de verdade’- mas o assédio é até mais frequente justamente porque a sociedade nos culpabilize ainda mais diante de assédio na desculpa de voce escolheu ser mulher, então lide com isso”.

Mulheres trabalhando em games no Brasil

Segundo o 1º Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais, publicado pelo BNDES em 2014, a cada 20 pessoas que trabalham com a produção de jogos no Brasil, apenas 3 são mulheres. Ainda não há um estudo que contabilize, mas mulheres trans certamente são mais raras ainda nessa indústria. Cecihoney, paulista, 35, já se aventura no mundo dos videogames desde jovem “com coisa de 13 anos ganhei meu Dynavision (equivalente ao Nintendo Entertainment System), não foi meu primeiro console, mas certamente com ele que começou meu gosto por games. Inicialmente com Vice – Project Doom e graças a ele me recomendaram MegaMan 2 e 3… amei muito!”. Com a junção da paixão dos games e seu dom artístico não poderia dar outra. “Eu desenhava desde pequena, inicialmente carros, naves e robôs porque tinha medo de desenhar gente. Com cerca de 10 anos desenhei no paint pela primeira vez, achei lindo ter zoom e poder corrigir as linhas pixel a pixel!”, nos conta animada. “Adulta comecei a brincar de Rpgmaker, me misturei nos fóruns estrangeiros, participei como voluntaria em muito projeto amador e por fim comecei a pegar freelas na área”. Hoje Ceci já tem no currículo games como Swords & Potions Online, Saturday Mornig RPG, The Viceroy, The Sentient Evil Hazard, entre outros.

(Ceci além de trabalhar como pixel art, tem seu próprio projeto de Mangás.)
(Ceci além de trabalhar como pixel art, tem seu próprio projeto de Mangás.)

 

Vamos falar sobre games?

 Diante desse cenário cada vez mais feminino, os sites especializados já estão preocupados em contar com mais mulheres na redação. O site Player 2 recentemente convocou mulheres a fazerem parte do site. O anúncio dizia que ter mais mulheres na equipe garantiria que eles pudessem ter uma linguagem mais plural do conteúdo produzido, de forma a representar os mais diversos gêneros, sexualidades e etnias. A iniciativa foi um sucesso! “Em três semanas de campanha, mais de 200 meninas se inscreveram para participar do projeto. Das quais, tive que selecionar 50!” nos conta Wagner Wakka, editor-chefe do site. “Nós ficamos mega surpresos. Na verdade, eu fechei a seleção quando bateram 200, mas estava recebendo e-mail até fechar. Essas 50 já fazem parte da equipe.”

Os games me ensinaram que quando você encontra inimigos pelo caminho, significa que você está indo pela direção certa e se você realmente quer um final feliz, você terá que lutar muito pra conseguir. Me ensinaram que podemos errar várias vezes e os problemas vão se acumular, mas se tivermos paciência e não desistirmos, os acertos os fazem desaparecer como mágica. Tenha orgulho das coisas que você fizer, das coisas que você construir, mesmo que as pessoas digam que não ficou tão bonito, aparência não é tudo. Os jogos me ensinaram que a guerra… a guerra nunca muda. Que toda escolha gera uma conseqüência, não só para você mas para o mundo e as pessoas a sua volta. Que vilões geralmente são vilões por uma razão e que aos olhos de alguns esses vilões estão certos e eles são os verdadeiros heróis. Os jogos me ensinaram que a dor é terrível, mas ela nos guia para evoluirmos e nos tornarmos cada vez mais fortes. Que morrer é realmente triste, mas se for pelos motivos certos e principalmente se for para proteger pessoas que você ama… tudo bem. Que você não precisa ser do mesmo sangue, raça ou espécie pra esse alguém ser considerado família. Rivalidade não significa inimizade. Se você ama alguém de verdade, você só quer ver essa pessoa feliz mesmo que ela fique com todo crédito por algo que você ajudou. O obstáculo pode ser gigantesco, parecer impossível, a gente pode tentar e falhar várias vezes, mas com as tentativas vem o aprendizado e com o aprendizado vem a melhoria e com a melhoria vem a superação e aquele bicho papão não vai existir mais. Que a jornada em alguns casos vale muito mais do que a recompensa final. {Trecho do vídeo Ser Gamer… (Somos 3 milhões) do Youtuber Zangado Games que conta com 3 milhões de inscritos e uma fã page com mais de 2 milhões de curtidas. Clique aqui para assistir completo}

Se aprendemos tantas coisas com os games, já passou da hora de todos aprendermos que o mundo tão vasto e maravilhoso, que une tanta gente, não pode ser exclusivo ou majoritário de uma raça, cor, orientação sexual, credo… Os vídeo games são feitos por pessoas e para pessoas. Que apareçam mais Carol Shaw, mais Any Hennig, mais Rhianna Pratchett, mais Kim Shift, mais Lucy Bradshaw, mais Kiki Wolfkill, mais Daianas, mais Cecihoneys, mais mulheres, mais homens, mais trans, mais crianças, mais adultos, mais idosos… mais gente.

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