Mulheres negras nas Universidades: o que está por trás dos indicadores

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   Camilla Souza

A participação de mulheres negras com doutorado nas cadeiras das universidades do país, assunto pouco abordado entre os acadêmicos de modo geral, é discutida no artigo: “Doutoras professoras negras: o que nos dizem os indicadores oficiais”, publicado em 2010 por Joselina Barbosa, negra e doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ.
Na análise, dados levantados em fontes oficiais de pesquisa, entre eles, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior, Sinaes, e o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, apontam uma realidade desigual no sistema de ensino superior: dos 63.234 docentes, apenas 251 são mulheres negras, o que, em termos percentuais, representa menos de 0,4% do total.
Ainda de acordo com os dados levantados por Silva, das mulheres negras com título de doutorado, 201 são Doutoras, 43 Pós-Doutoras, 3 têm livre docência e apenas duas têm Livre Docência e Pós-doutorado. Quanto à distribuição geográfica, a maioria delas está na região Nordeste, 90, em seguida, 86 no Sudeste, 31 no Sul, 20 no Norte e 22 no Centro-Oeste.
A autora ainda as divide em áreas de conhecimento: 98 delas estão nas Ciências Humanas, 26 nas Ciências da Saúde, 26 na área Linguística, Letras e Artes, 23 nas Ciências Exatas e da Terra, 23 nas Ciências Biológicas, 14 nas Ciências Agrárias, 21 nas Ciências Sociais e Aplicadas e uma nas Relações Internacionais.
No entanto, os números apenas não podem demonstrar os fatores históricos e sociológicos que estão por trás da disparidade numérica entre o gênero e a cor das(os) professoras(es) doutoras(es) do Brasil. Não são suficientes também para justificar a distribuição dessas docentes pelas cinco regiões do país e na predominância delas nas Ciências Humanas.
Questões como o racismo e o machismo, impostos às mulheres negras desde o período escravocrata, e, por conseguinte, a marginalização do povo negro ainda se traduzem como os principais entraves.
Martha Rosa Queiroz é uma das 251 docentes negras do país. Doutora em História pela Universidade de Brasília e professora e professora adjunta da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, UFRB.
Caçula de oito irmãos, foi a primeira a ingressar em uma Universidade Federal, em 1985, em Pernambuco. Escolheu o curso de História devido à sua atuação no Movimento Negro, do qual faz parte desde adolescente, e por acreditar que as Ciências Humanas podiam ajudar na construção de uma nova educação e sociedade.
No início da graduação, dividiu aulas com três colegas negros, que foram desistindo do curso ao longo dos semestres. A partir daí, tornou-se a única estudante negra da turma. “O pior do que ser minoria no ponto de vista físico era ser minoria no ponto de vista teórico, epistemológico e de incentivo”.
A falta de autores negros na bibliografia do curso também afetava sua carreira. “Por ser do Movimento Negro, eu já fazia leituras sobre a questão racial e os teóricos que eu lia nunca estavam lá, e isso fazia com que eu entrasse em constantes embates teóricos com meus professores”.
Queiroz também foi alvo de preconceito dos colegas. Suas falas eram ridicularizadas e era chamada de quilombola, no entanto, com conotação pejorativa: “eram tentativas de inibir”.
Logo em seguida entrou para o mestrado. Não sem críticas. Colegas tentavam frisar a dificuldade de seguir a carreira acadêmica e a incentivavam a entrar no mercado de trabalho. Para ela “é uma estratégia da elite de superqualificar o que eles fazer e fazer com que o negro não se sinta capaz. É uma estratégia que funciona às vezes”.
Decidiu também fazer doutorado em Brasília, em 2010, para conhecer outras realidades. Entre as dificuldades encontradas para seguir a carreira acadêmica estavam a falta de representatividade, de incentivo e de projetos e iniciativas de financiamento e permanência na Universidade através de bolsas de pesquisa, por exemplo. Situação que, para ela, tem sofrido um pequeno avanço.
Em 2014, publicou, em parceria com Lindivaldo Leite Júnior, o livro “Caderno de Diálogo: Plano Setorial para a Cultura Afro-Brasileira”, em Brasília. Em 2004, recebeu o I Prêmio literário A GAZETA, da editora jornalística “A Gazeta”. Recebeu também, em 2010, prêmios literários em Recife.
Atualmente, Martha Rosa coordena o Projeto de Extensão: Estudo de História e Educação Patrimonial, que tem como foco principal desenvolver o senso de pertencimento e valorização da história e patrimônios de Cachoeira e São Félix em estudantes da educação básica.martha rosa
Martha Rosa é uma das professoras doutoras negras integrantes do corpo docente da UFRB

Entraves na carreira
Apesar do ingresso cada vez maior de negras(os) nos centros acadêmicos, a permanência dos estudantes ainda é um entrave, que influencia negativamente nos dados estatísticos. Para Martha Rosa Queiroz, a diminuta presença negra nas universidades se deve à falta de estímulo generalizada, até mesmo da família: “a família quer muito que a gente estude, mas falta a ela experiência da significância da permanência do estudo”.
A doutora enfatiza também a precariedade da vida como outro ponto que afeta diretamente na vida acadêmica: “precisar correr atrás de trabalho, de manutenção da vida, também faz com que muitos jovens negros desistam de uma qualificação”.
Mas, para ela, o pior de tudo é o esmagamento da autoestima negra: “A todo momento você escuta que não é capaz, que isso não é para você. Temos que passar por cima disso o tempo todo”.

Políticas para permanência
Tendo em vista a dificuldade enfrentada por jovens negros, em sua maioria mulheres, de permanecerem nas universidades, foram criadas políticas de permanência, entre elas as bolsas de pesquisa. Martha Rosa Queiroz enfatizou a importância dessas políticas no incentivo à pós-graduação, que gerou uma onda de motivação de jovens negras(os).
Para o futuro, ela espera que “essa moçada que está entrando na Universidade, por cotas ou não, entenda que houve uma luta muito grande para possibilitar que cada um deles esteja lá, e que saiam compromissados com a luta contra o racismo. É necessário que a sociedade entenda que quando os negros conquistam direitos, todos ganham”.

Temáticas curriculares
Além de defender o ingresso e permanência de estudantes negras(os) nas universidades, há também um interesse em discutir questões raciais atreladas à comunicação, sociedade, mídia e saúde. Martha Rosa Queiroz divide com Denize Ribeiro, também professora e doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia, a disciplina optativa: Comunicação e Sociedade, com um recorte em Mídia e Etnicidade.
Nela, graduandos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Ciências Sociais discutem a questão racial refletida na mídia e nos anúncios publicitários, promovendo um debate que visa, além da permanência na comunidade acadêmica, um direcionamento para pontos que afetam diretamente a vida das(os) estudantes negras(os).

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