Municipalização do ensino fundamental afeta alunos e professores em Cachoeira

Professoras e alunos da Rede Estadual relatam as dificuldades encontradas depois da municipalização dos colégios estaduais Padre Alexandre de Gusmão, em Bélem, e Antônio Joaquim Correia, em Capoeiruçu.

Por: Giovane Alcântara e Leilane Fernandes

Professores e alunos estão preocupados com o processo de municipalização do ensino fundamental que tem resultado no remodelamento de várias unidades escolares no interior e na capital da Bahia. O projeto segue a Lei de Diretrizes Básicas da Educação que prevê que o município deve priorizar a gestão do ensino fundamental, em parceria com o Estado.

No Estado, esse processo começou na década de 1990 e foi incentivado pelo Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef) que prevê um repasse de recursos às escolas do ensino fundamental com base no número de alunos matriculados. Assim, com a municipalização, as cidades, teoricamente, recebem mais recursos por terem mais alunos inseridos nas escolas.

Segundo o projeto, a municipalização deveria ser gradual e transparente, objetivando melhorias na estrutura física e financeira de cada escola. Mas, em alguns casos escolas foram fechadas, e em outros os alunos tiveram que ser realocados nas escolas municipais. Maria* é uma dessas alunas; ela estudava no Colégio Estadual Antônio Joaquim Correia, em Capoeiruçu, mas teve que ser transferida para a Escola Municipal João Gonçalves. Para a estudante, a experiência e o processo de adaptação em outra escola foi desagradável, como contou para o Reverso Online. “Foi um pouco ruim porque eu já conhecia os professores do Antônio Joaquim Correia, e aqui na Escola Municipal eu não conheço ninguém. No início foi difícil.”

A municipalização também atinge os professores da rede estadual. Problemas com o deslocamento, dificuldades de inserção em outras unidades, a adaptação em outro ambiente são alguns dos problemas relatados. A professora de Geografia Itamara Soares, que antes lecionava no Colégio Padre Alexandre de Gusmão, em Belém da Cachoeira, foi realocada em Santiago do Iguape. Ela ficou sabendo da municipalização do Colégio através de um e-mail compartilhado com os docentes no início desse ano, mas achava que o processo não iria se efetivar, já que o Colégio ficava localizado na zona rural da cidade e já estava há décadas na comunidade.

“Saí de uma escola na zona rural, de pequeno porte, para uma escola na zona urbana, de médio porte, em uma outra cidade e de curso técnico e profissionalizante… tudo é diferente. É um novo começo, e não uma continuidade do meu trabalho”.

Férias interrompidas

O período de férias foi interrompido com a notícia. A partir desse momento, o descanso cedeu lugar para o desgaste emocional, o estresse e as dúvidas, como relatou a professora. Ainda assim, a preocupação maior era em qual lugar os professores daquela escola seriam realocados, já que muitas escolas estavam passando pelo mesmo processo. Muitos deles foram para cidades distantes do polo Cachoeira, São Félix, Maragogipe, e tiveram que encontrar outras salas de aulas em cidades como Sapeaçu, Cruz das Almas, Salinas das Margaridas, Santo Amaro e Cabaceiras do Paraguaçu.

É o caso da professora de Educação Física Milene Mabel, que foi removida para o Centro Técnico e Profissionalizante do Recôncavo Jonival Lucas, no município de Sapeaçu, a 36 km de Cachoeira. Sobre a mudança de rotina ela nos contou que: “Saí de uma escola na zona rural, de pequeno porte, para uma escola na zona urbana, de médio porte, em uma outra cidade e de curso técnico e profissionalizante… tudo é diferente. É um novo começo, e não uma continuidade do meu trabalho.”

A professora ainda ressaltou um problema que atinge muitos alunos: o déficit no processo de aprendizagem. “Antes nós recebíamos os alunos do fundamental 1 com grandes deficiências nas aprendizagens básicas, como ler ou realizar as quatro operações básicas da matemática. Durante o ensino fundamental 2 nós tínhamos que trabalhar essas dificuldades para prepará-los para o ensino médio. Agora nós recebemos os alunos com as mesmas deficiências, só que já no ensino médio, quando não há mais tempo para lidar com as limitações desses alunos. Isso dificulta todo o planejamento das aulas, que deve dar conta de conteúdo básicos obrigatórios que, na maioria das vezes, os alunos não estão aptos a entrar em contato.”

O processo de municipalização acaba alterando a rotina dos professores e dos estudantes, além de provocar o inchaço em outras escolas que, por vezes, não possuem estrutura para receber uma grande quantidade de alunos. Além disso, afeta aspectos que são importantes para o processo de aprendizado, como o lugar de pertencimento, a noção de espaço-tempo, e o acompanhamento de desempenho pessoal de cada indivíduo, já que os alunos são transferidos para outros polos educacionais.

*Por ser menor de idade, o nome da fonte foi preservado.

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