Ocupação e a história da fábrica Suerdieck

 A antiga fábrica de charutos a Suerdieck ainda está sendo ocupada em Maragogipe 

Na cidade de Maragogipe o prédio que funcionava nos séculos passados como fábrica de charutos a Suerdieck, está sendo ocupada pelos maragogipanos. Alguns deles moram no local mas grande parte dos ocupantes fizeram da antiga fábrica diversos tipos de comércio: uma escola, um escritório odontológico, duas academias, uma pequena fábrica de caixas para charutos e uma loja de roupas, igreja, carpintaria etc.

Apesar do espaço contribuir com a renda das pessoas que se apropriaram, fica explícito os riscos que as estruturas oferecem atualmente. Além de os ocupantes readaptarem alguns  espaços utilizados, o antigo prédio não passou por nenhuma manutenção. Jocimar Santana, proprietário de uma oficina de bicicleta desde 2003, após a visita de um engenheiro civil, declarou que prédio não corre perigo algum, e afirma ter o alvará de funcionamento que foi adquirido através da prefeitura  sem nenhuma burocracia.

De acordo com fiscal de tributos Glailson Medina, a prefeitura disponibilizou o alvará posteriormente a visita de um engenheiro civil, que apresenta um diagnóstico alegando que o local está seguro para ser modificado ou ocupado. Mas segundo Glailson, a Suerdieck  “é uma massa falida (significa que existe uma propriedade privada que se encontra em falência), e tem dono”.

Um trecho da história da Suerdieck

A antiga fábrica foi criada por Ferdinad Suerdieck, batizada pelo nome Suerdieck e começou a funcionar em julho de 1905. Os primeiros trabalhos eram precários mas com o tempo foram se aperfeiçoando e modernizando.  Mas o espaço utilizado neste momento foi local para armazenamento no bairro do Cajá, a iniciativa foi de August Suerdieck irmão de Ferdinand, dois anos depois a fábrica mudou-se para a Praça da Matriz onde permanece até os dias atuais.

Em 1908, participando da Exposição Nacional do Rio de Janeiro, a empresa Aug. Suedieck foi agraciada com dois prêmios, uma Medalha de Ouro e um Grande Prêmio Especial. Este último foi para a cultura aperfeiçoada do fumo, fruto da introdução, em Cruz das Almas, de plantações pioneiras no Brasil, abrigadas do sol, sob coberturas de gaze.

SALÃO EM COQUEIROS Visando o aproveitamento das charuteiras residentes em Coqueiros, a Suerdieck abriu um salão de fabricação neste povoado do município de Maragogipe. A unidade representava uma extensão da fábrica propriamente dita, para onde eram enviados os charutos depois de prontos, para as etapas finais: estufamento, prensagem, anelamento, celofonagem, encaixamento, empapelamento e expedição. Com a crise provocada pela guerra na Europa, o salão em Coqueiros foi desativado e nunca mais reaberto (trechos do livro A Epopeia do Gigante de Ubaldo Marques Porto Filho).

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Plantação do fumo Bahia-Brasil, em Cruz das Almas, na propriedade de August Suerdieck. No fundo a parte especial, abrigada do sol. Foto de 1908.

August Suerdieck teve a iniciativa de abrir armazéns de fumo nas cidade de São Gonçalo dos campos, São Felix e Maragojipe, porque em Cruz das Almas já existia o processo de enfardamento e compra. August começou uma dedicação para o cultivo do fumo juntamente com a manufatura, porque existia a Dennemann e a Victória que eram fabricas de grande porte que instalaram na cidade. Mas o cultivo dos fumos em Maragojipe foram determinantes pelos seguintes aspectos: a tradição da mão- de- obra, com referência nas charuteiras, localização favorável no eixo do Rio Paraguaçu, fácil transporte de mercadorias através dos saveiros que faziam as travessias com Salvador.

Durante 30 anos de fabricação de charutos a Suerdieck conseguiu se manter consolidada e bastante reconhecida pela qualidade dos charutos que alcançavam vendas grandiosas no Brasil e no mercado Europeu. Com a grande demanda foi necessário abrir duas fabricas um na cidade de Cruz das Almas e a outra em Cachoeira.

 

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Os dois blocos da fábrica de Maragogipe.

No final de 1995, a Suerdieck passou por uma nova crise financeira provocada pela queda da safra atingida por um grande ataque de fungos. Neste período de grande dificuldade é possível que os administradores imaginassem a queda definitiva da fabrica.  A produção de charutos foi interrompida em 30 de outubro de 1999, no dia seguinte os funcionários entraram em férias coletivas e no período de retomada das atividades foi anunciado o fechamento definitivo da fábrica. A empresa previa uma rápida resolução com questões de seguro desemprego ao manterem apenas 100 funcionários em atividade. Durante 55 anos, a Suerdieck legitimou-se como a maior fabricante e exportadora de charutos brasileiros, porém a crise iniciou-se num momento considerado importante porque o hábito de fumar charutos havia crescido mesmo havendo conscientização contra o uso de cigarros.

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Passarela sobre a Rua Augusto Suerdieck, interligando os dois prédios da fábrica, que se transformou na “ponte da discórdia”.

É de extrema importância realçar que a Suerdieck foi a maior fornecedora de charutos e através deste crescimento a economia de Maragogipe alcança seu apogeu, porque muitas pessoas de outros lugares vinham em busca de emprego e grande parte dos maragogipanos conseguiam se manter economicamente através destas atividades. Valdir dos Santos ex-funcionário da fábrica conta que a população havia crescido bastante neste período, e a Suerdieck controlava a grande parte econômica da cidade. A sua função era de ferrar caixas ou seja, imprimir letras nas caixas de charutos. Valdir ressalta que a desativação da fábrica deixou muita saudade e para ele foi muito satisfatório fazer parte desta história e lembrar que seus pais também contribuíram muito com suas forças de trabalho.A maioria dos funcionários da fábrica eram do Recôncavo, graças ao trabalho destas pessoas a Suerdieck tornou-se referência como o maior fábrica de charutos do século XX.

Imagens atuais da Suerdieck

 

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Imagens : Evelin Querino

Referência: Suerdieck, epopéia do gigante. Ubaldo Marques Porto
Filho. – Salvador, 2003.

2 comentários sobre “Ocupação e a história da fábrica Suerdieck

  1. Como pode um prédio deste porte, com a história que tem, que contribuiu para a economia da Bahia e do Brasil, ser abandonado pelos órgãos públicos. Onde está o IPHAN que não tomba este patrimônio histórico e cultural. Pelo menos uma pintura para amenizar os impactos de uma destruição sofrida pelo abandono de quem deveria cuidar. Até quando iremos cruzar os nossos braços frente a tantas injustiças e descasos para as riquezas históricas de nosso país.

  2. Maravilhoso este breve documentário da Fábrica de Charutos Suerdieck em Maragogipe. Já faz 01 ano que comentei sobre este acontecimento e até agora não vi nenhum comentário.

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