OCUPADOS: Como funciona uma ocupação

A imposição de uma reforma no Ensino Médio sem o debate com a sociedade, a PEC 241 que visa limitar o teto dos gastos públicos e pode afetar o investimento em educação no país nos próximos anos, a rejeição ao PLS 193/16, que propõe o “Programa Escola sem Partido”. Foram esses os primeiros acontecimentos que apontaram o chamado Desmonte da Educação pública brasileira. A grande mudança executada pelo governo do atual presidente Michel Temer.

Diante das inquietações políticas que surgiram no Brasil a partir do início do mandato de Temer, estudantes secundaristas do Ceará, Goiás, Rio Grande do Sul e São Paulo enfrentaram a mídia que apoia o governo, contínuas afrontas da direita, os trâmites da UNE e a coibição do governo e nos ensinaram sobre resistência, lutando e ocupando instituições de ensino.

Eles mostraram a circunstância de catástrofe da educação pública do país. Isso acabou motivando as universidades estaduais paulistas a engajar-se às greves também. Os discentes se uniram com os trabalhadores e ergueram-se contra o desmantelo das universidades estudais, o progresso na ineficiência do trabalho e acima de tudo contra o racismo institucional, lutando pela implantação das cotas raciais. Eles estavam contra o golpe e a incompetência da educação brasileira.

Em outubro, os secundaristas do Paraná começaram a ocupar em resposta à PEC 241/55, a chamada “PEC do fim do mundo”. Mesmo com a violência dos “desocupas” foram mais de oitocentos escolas ocupadas no estado. Eles que desencadearam uma onda que tomou todo o país. Estudantes pelo Brasil construíram o maior movimento de ocupação nacional. Mais de mil e cem escolas, Institutos Federais e universidades opuseram-se à PEC 241/55, à Reforma do Ensino médio e o Escola sem Partido.


No dia 19/10, a assembleia geral de estudantes da UFRB, em Cruz das Almas, deliberou a ocupação imediata da reitoria e de todos os centros da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Assim começou o movimento de ocupação do Centro de Artes Humanidades e Letras.

Ao contrário do que a mídia mostra a respeito de ocupações, a ocupação no CAHL foi livre de conflitos. Nada próximo às invasões e embates comumente mostrados na televisão. Formado em sua maioria por negros, lésbicas, gays e bissexuais, o grupo de estudantes que fez a ocupação no CAHL compartilhou do sentimento de inquietação em relação a PEC e todas as problemáticas já citadas anteriormente. Por isso, o eixo principal que norteou todo o movimento foi a educação.

É o que o cineasta Marvin Pereira mostra no documentário OCUPADOS. A ideia surgiu nas disciplinas de Gêneros e Novas Tendências do Documentário ofertadas pelo curso de Cinema e Audiovisual da UFRB, quando a professora percebeu que Marvin era da turma a pessoa mais próxima da ocupação. Ele reuniu os quase cem gigas dos arquivos coletados pelos próprios estudantes que participaram das atividades, assistiu e selecionou as imagens.

O documentário começa fazendo um apanhado do que aconteceu na Assembleia em Cruz das Almas, que resultou na ocupação de toda a UFRB e segue mostrando como as atividades foram realizadas no CAHL e ainda entrevistas com alguns estudantes que participaram e contribuíram para que elas fossem realizadas. A ocupação realizava aulas públicas, oficinas, exibição de filmes e outras atividades direcionadas aos próprios estudantes e à comunidade, seguido de discussões a respeito da situação política do país e da natureza da ocupação. Secundaristas da cidade e professores dali e de outras instituições faziam visitas ao CAHL e executavam a ideia de uma universidade pública de fato.

A ocupação do CAHL foi a primeira de muitas das pessoas que estavam lá. Apesar do medo está presente em diversos momentos justamente pela falta de experiência, o apoio da comunidade através dos diálogos e trocas que aconteciam dentro da universidade, as doações recebidas e a reflexão sobre a importância de ocupar naquele momento contribuíram para que a ocupação funcionasse.

No intuito de criar uma visibilidade contra o golpe, a PEC e as reformas, surgiu a ideia de criar uma mídia alternativa para divulgação do material produzido por eles durante as atividades realizadas na ocupação. Foi quando começou a funcionar de fato o Mídia Livre do CAHL, página inicialmente criada pelos estudantes de Cinema no Facebook. A página se tornou a ferramenta de compartilhamento da movimentação da ocupação, por ser uma ferramenta de maior alcance e de caráter imediato. Estudantes de todos os cursos alimentavam a página criando conteúdo, tudo funcionava no coletivo.

O documentário faz um panorama do que aconteceu na ocupação do centro, buscando mostrar o funcionamento de cada nicho que permitiu a efetividade da ação. O filme está em fase de finalização e em breve será disponibilizado no Vimeo.

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