Paredes pintadas do CAHL dividem opiniões

Frases inscritas nas paredes da universidade são desaprovadas pela maioria e levantam debates

Magno do Rosário

Há pouco mais de dois anos alguns estudantes da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia transformaram radicalmente o visual das paredes internas do Centro de Artes Humanidades e Letras, em Cachoeira. Usando tintas de várias tonalidades, palavras de ordem, expressões de forte apelo sexual, de ideologias políticas, contra os preconceitos de gênero e racial, oriundas do movimento feminista, foram grafadas por toda parte.

Embora pareça que discentes de pensamentos contrários não se importam com tais expressões, a verdade é que, nos bastidores, muitas são as manifestações de repúdio. Há, em geral, o entendimento de que a liberdade de expressão deve ser exercida, mas se comenta que a forma como esta se apresenta no CAHL acaba chocando muitas pessoas, principalmente visitantes e calouros que trazem consigo princípios religiosos ou o conservadorismo de muitas famílias.

Uma estudante de Ciências Sociais, que não quis se identificar, declara que fica com receio de comentar o assunto, temendo represálias, mas opinaria para a direção do Centro apagá-las. Já outra estudante, de Publicidade e Propaganda, que também tomou o anonimato como prudência, diverge: “Rapaz, não me incomoda, com algumas [frases] até me identifico, então não vejo porque tomar uma atitude, com tantas outras demandas com muito mais urgência. Nos falta tantos equipamentos, professores, melhor estrutura. Muitas delas são desnecessárias, mas ainda consigo vê-las como forma de protesto e grito de liberdade”.

André Dantas, aluno de Artes Visuais, que, com outro colega, Leo Pessoa, idealizou as intervenções no local, acredita que as mensagens deram voz às pessoas que se sentiam sem representatividade e espaço, dentro da universidade. Sobre aqueles que se sentem incomodados com o teor das inscrições, diz: “Não vejo muito de agressivo nas frases, me incomodaria incitações à violência ou ao ódio. Acredito que incomode algumas questões de liberdade sexual que foram colocadas. Uma que sei que foi muito criticada foi: ‘Jesus é uma bixa preta’. Mas, quem critica, não sabe que Jesus é o nome de um aluno gay, e negro”.

FOTO: Magno do Rosário

Fernanda Abreu, também de Artes Visuais e uma das alunas que participou das pinturas, relata que pintar o CAHL foi uma experiência marcante. Conta que uma amiga, evangélica, ao vê-la escrevendo uma frase, a criticou, afirmando que aquilo era uma ação de vândalos. Ao ouvir isso, a aluna destaca apenas o fato de ter explicado que, na verdade, aquilo era apenas uma intervenção artística, e a convidou para pintar também o que ela quisesse, abrindo, portanto, um diálogo importante, dentro do CAHL. A amiga então escreveu uma mensagem evangélica.

“É um Centro de Humanas, é um Centro de Artes. E como assim um centro de artes com as paredes todas brancas, sem arte, sem nada sendo exposto? As pessoas precisam ter uma transformação. E só de você entrar na universidade e ver tudo grafitado, tudo pichado, em algumas dessas frases a gente reflete em várias coisas. E aí você já consegue se comunicar, ter uma transformação. Uma pessoa da cidade ou um universitário que vem aqui todo dia, sempre descobre algo de novo nessas paredes”, reflete Fernanda.

Todavia, um estudante de Ciências Sociais, que, igualmente, optou pelo anonimato, diz: “Concordo com algumas expressões, mas tem outras que leio e que me sinto num colégio de nível fundamental, e não em um lugar para supostos ‘intelectuais'”. O discente também se mostra muito preocupado com a comunidade, e o impacto que muitas frases causam nela. Isso é reforçado pela opinião do ator Cláudio dos Santos: “Se eu, como visitante, me senti envergonhado ao circular pelo local, imagino também a decepção de outras pessoas que aqui chegam. Eu não sei se teria coragem de trazer um familiar ou meu filho para conhecer a UFRB”.

Entretanto, os autores das frases escritas, por sua vez, defendem com bastante tenacidade a sua forma de pensar e agir. Fernanda é do pensamento que “não é obrigado você gostar de tudo aquilo que você não considera arte, como também não é obrigado a odiar tudo o que você considera. O mais interessante da arte é exatamente isso: você ter a possibilidade de provocar alguma sensação no outro, seja ela boa ou ruim”. E, André, complementa: “Particularmente acredito que essa ocupação das paredes cria uma maior sensação de pertencimento. Tanto em quem faz, quanto em quem se incomoda. Acaba com a ilusão de que a instituição é algo imutável”.

Ainda de acordo com o graduando em Ciências Sociais, as pinturas nas paredes obedecem à criação de um perfil, dentro do CAHL, a um modelo diretamente ligado ao pós-modernismo, que influencia o pensamento universitário contemporâneo, onde as pessoas têm que aceitá-lo sem poder falar nada. “É um culto à personalidade, onde a mesma se sobrepõe, esse indivíduo se sobrepõe ao coletivo. Para o povo do CAHL, é mais importante eles ali do que o povo da comunidade. E aí eu penso que devo respeito ao povo de Cachoeira e ao povo de São Félix, pois têm pessoas de idade, mais novas, que não compreendem aquele universo, que se chocam com aquilo”, conclui o estudante.

Os autores discordam, acreditando que tabus só passam a ser pauta, quando são apresentados de forma chocante. Garantem que não existe motivo para as pessoas sentirem qualquer tipo de receio, tomando, por exemplo, o anonimato como escudo.

André Dantas comenta que ele e Leo Pessoa, na época da pintura, sofreram coação de seguranças e servidores da universidade. Segundo ele, o tema foi levado ao colegiado, sobretudo quando soube por pessoas ligadas à direção, então sob a responsabilidade de Georgina Gonçalves, que havia sido cogitada a expulsão dos alunos. André não responsabiliza a ex-diretora, e destaca que alguns professores intervieram em favor da causa. “Como resposta, juntei uma série de pessoas que eram favoráveis às pinturas. Fizemos uma vaquinha e compramos materiais para fazer algumas oficinas. Depois disponibilizamos esse material para outras pessoas que se interessaram, e ele ficou por lá, na ‘cantina’. Quando voltei, no outro dia, o pessoal tinha encontrado, e tinha gente pintando por todo lado”, lembra o estudante.

FOTO: Magno do Rosário

Para o diretor do CAHL, Jorge Cardoso Filho, as mensagens fazem parte de um processo de expressão das opiniões e das dinâmicas sociais. Afirma entender que as situações controversas, de divergência de opinião entre os discentes, aconteçam, mas que isso também faz parte da dinâmica da própria universidade. E que aqueles que têm opiniões divergentes devem ser capazes de entender uns aos outros, tendo em vista que estudam num ambiente propenso ao diálogo sobre as questões mais polêmicas.

Feita uma rápida pesquisa com algumas dezenas de estudantes, a maioria deles disseram, voluntariamente, preferir que as inscrições sejam apagadas das paredes, ou mesmo, levando em conta os direitos de liberdade de expressão, que a direção do Centro destine apenas um local específico para tais manifestações.

Jorge Cardoso declara que o CAHL tem recursos para solicitar a pintura do pavilhão e atender àqueles que se sentem prejudicados e ofendidos, mas, levando em consideração que existem as manutenções necessárias e pouco recurso disponível, questiona qual a prioridade mais lógica que a direção deve dar. Porém, deixa claro que uma pintura total do quarteirão, que faz parte do processo de manutenção, restauro e conservação do bem público, está prevista, mas que isso não quer dizer que a direção não valoriza ou não presta atenção nesses debates, tão necessários à universidade.

O diretor é questionado se, na ocasião de uma nova pintura, orientará para que novas inscrições não sejam feitas. Para isso, responde que se pode reduzir a necessidade dessas intervenções através do estímulo de debates em torno dos temas defendidos, o que, segundo ele, é uma pauta constante em sua gestão. Entretanto reconhece que, mesmo com esses esforços, não há garantia de que novas pinturas não sejam feitas.

Informado que, de acordo com o que foi constatado na elaboração desta reportagem, muitos estudantes não se manifestam por receio de reações acaloradas de alguns dos autores, Jorge afirma que a universidade é um espaço privilegiado para que manifestações agressivas entre pessoas com posições de mundo e opiniões diferentes não aconteçam. E, finaliza: “Eu entendo que, em algumas circunstâncias, alguma opinião pode ser constrangedora para alguém, mas, isso não deve ser motivo para que a pessoa se inviabilize de participar do debate e discutir alguma questão, pois, se a universidade não for capaz de produzir debates sobre suas próprias expressões de maneira reflexiva, ela perde, inclusive, sua razão de ser, porque ela não vai ser capaz de autoavaliar e autocriticar essas possíveis expressões, opiniões e posições políticas que são colocadas de alguma maneira”.

FOTO DA CAPA: Magno do Rosário

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