Porta do Céu

Por Leilane Fernandes

Tinha dois filhos. Os segurava impacientemente no colo, enquanto a van balançava pela estrada. Era bem jovem; como a maioria das mães daquele lugar, mas já cheia de marcas de expressão e de cansaço. As mãos tinham a firmeza gentil que só a maternidade pode dar.

Era um dia quente de verão, ainda nas primeiras horas da manhã, o sol já estava bravo no céu. Um ponto de luz insistente na janela do transporte que nos leva a nossos destinos.

– Eu tenho pra mim que o sol é a porta do céu – disse para a moça que sentava ao seu lado

– Tu acha? – perguntou a moça, enquanto uma ruga se formava na sua testa

– Eu acho, porque é ponto mais iluminado da terra e ninguém consegue olhar pra ele sem ficar cego. Eu tenho pra mim que lá é a porta do céu e Jesus vai sair de lá quando voltar. – disse enquanto lutava para segurar os filhos quando a van fez uma curva brusca de repente.

A mulher que a essa altura parecia mais impaciente para chegar ao seu destino do que em prestar atenção nos devaneios da sua companheira de banco, respondeu apenas para encerrar o assunto: 

– Quem sabe, né?

– Às vezes eu fico me perguntando essas coisas. Tipo, quem criou Deus? Porque Jesus a gente sabe que foi Deus quem criou, mas, e Deus? Às vezes eu penso tanto nisso que eu acho que vou ficar doida! – um dos meninos deu um pulo no seu colo, ela lhe deu uma palmada – Às vezes a gente pensa tanto que fica doido! Mas eu tenho pra mim que o sol é a porta do céu.

 

Nesses dias tão corridos, onde a vida parece passar como um sopro, me pergunto se todos não estamos perdidos tentando encontrar a porta do céu.

 

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