Quantas autoras negras você já leu?

A escritora e pesquisadora Evelyn Nascimento conta seu processo de “escrevivências” ancoradas a sabedorias ancestrais de Santo Amaro – BA e o Projeto Lendo Mulheres Negras

David Santos

Bárbara Quintino, via Instagram @lendomulheresnegras

Maria Firmina dos Reis (1822 – 1917), mulher negra, nascida em São Luís – Maranhão, é considerada a primeira escritora brasileira a elaborar uma crítica antiescravista na literatura. No seu primeiro romance intitulado Úrsula, em 1859, articulou um posicionamento por meio da humanização de personagens de pessoas escravizadas – uma narrativa do ponto de vista da população negra. De lá pra cá, já se passaram 162 anos e a representatividade dos negros nessa e em outras áreas continua desigual.

Uma pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea do coletivo de pesquisadores vinculado a Universidade de Brasília (UNB), por exemplo, demonstra que entre os anos de 2004 e 2014 apenas 2,5% dos autores publicados não eram brancos, com o mesmo recorte temporal aplicado no estudo, só 6,9% dos personagens retratados nos romances eram negros e 4,5% eram protagonistas das narrativas.

Quando voltamos à memória para a escola quantos livros didáticos que lemos foram escritos por pessoas negras?  Como é para uma criança se ver representado em contos folclóricos e histórias de escravidão? A cantora e compositora Ivone Lara já dizia: “Eu vim de lá, pequenininho” e nessa andança de gente grande a bagagem é construída socialmente para pessoas negras – pela sua comunidade, que são transmitidas em conselhos como complementa: “Alguém me avisou para pisar nesse chão devagarinho”. Se dentro dos espaços ditos educativos não há representações válida, nas casas do Recôncavo Baiano o prato alimenta com identidade e sabedoria para um bem viver e ainda é capaz de ensinar a fazer samba.

E nesse prato recheado de cânticos e sabedorias ancestrais em Santo Amaro – BA que cresceu a escritora e pesquisadora Evelyn Sacramento, mestre Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia e cofundadora do projeto literário Lendo Mulheres Negras. “Minha família sempre proporcionou esse tipo de ambiente, foi muito desse lugar a minha formação e isso meio que determinou o que eu iria fazer futuramente, eu sabia que depois do ensino médio eu entraria numa graduação depois mestrado, um acordo tácito entre a gente ter a educação como norte”, afirmou Evelyn Sacramento que desde a infância se viu cercada entre música, literatura e cinema.

Durante a graduação em Cinema na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia participava ativamente dos movimentos e coletivos negros, e usava suas produções para questionar sobre a representatividade nos locais ditos culturais e acadêmicos, consequentemente novas inquietações a motivaram ao campo literário que chegou durante o percurso do mestrado como discorreu em entrevista: “Quando chego no mestrado eu começo a questionar a falta de mulheres autoras, e esse questionamento era compartilhado para outras pessoas. A gente queria uma bibliografia que fosse decolonial, a gente pensava nisso e começamos a perceber quantas autoras negras a gente tinha colocado na nossa lista de interesse de vida e nas bibliografias das produções.”

VOCÊ CONHECE A MENINA NICINHA?

Bárbara Quintino, via Instagram @lendomulheresnegras

A vertente da literatura negra ou afro-brasileira sofre diretamente efeitos da estrutura do racismo, podendo ser localizado no que chamamos de racismo linguístico e nas diversas formas do epistemicídio e semiocídio das produções elaboradas pela população negra.  É observado que nas últimas três décadas, por força do movimento de políticas afirmativas conquistado pela luta do movimento negro, um aumento de visibilidade de produções seja na literatura ou no âmbito acadêmico – mas ainda o processo é lento e na sua maioria autoras negras acabam sendo esquecidas – como a escritora mineira Carolina Maria de Jesus, que com a obra intitulada Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), vendeu 10 mil exemplares na primeira semana de lançamento, mas continua sendo desconhecida e sendo pouco veiculada nos colégios públicos do país.

O projeto Lendo Mulheres Negras nasceu em 2016, a partir de inquietações de  Evelyn Sacramento e Adriele Regine, e com o questionamento: “Quantas autoras negras vocês já leu?”, elaboram formas de incentivar o trabalho de mulheres negras em diversas áreas para além da literatura. “O verbo ‘LER’ foi ampliado e hoje o LMN fala sobre muitos aspectos da criação e arte produzida pelo seu público-alvo e também objetivo de pesquisa. Foi a partir dessa reflexão que surgiu a iniciativa de encontros literários para ler e discutir obras de autoras negras. De modo geral as mulheres, sobretudo as mulheres negras, foram excluídas de vários espaços sociais, políticos, culturais, e na literatura não foi diferente”, pontuou a equipe do Lendo Mulheres Negras.

Com trabalho sendo desenvolvido ativamente desde seu surgimento, o LMN caminha na tentativa de visibilizar e propor uma nova realidade que é tão perto de várias pessoas – o “escrevivência” (conceito construído por Conceição Evaristo), apresentar vivências e multiplicar conhecimentos diversos. “Na nossa trajetória, temos orgulho de dizer que o currículo do LMN está cada vez mais recheado! Realizamos diversas oficinas de criação, a mostra “Isso é Arte de Mulher Negra”, gravamos o podcast disponível no Spotify “E não sou uma mulher?”, em 2020 encaramos a empreitada virtual para o “I Seminário Lendo Mulheres Negras”, entrevistamos personalidades de diversas áreas no “LMN Convida” e agora com o ”II Seminário Lendo Mulheres Negras”, declarou.



Lendo Mulheres Negras, via Instagram @lendomulheresnegras

“Menina Nicinha” é a primeira publicação assinada por Evelyn Sacramento pela Lendo Mulheres Negras, o livro é inspirado nas conversas da autora com sua avó, e das suas lembranças de infância no recôncavo baiano. A obra é norteada para o público infantil com ilustrações da mineira Bárbara Quintino.

O livro “Menina Nicinha” foi contemplado no Prêmio das Artes Jorge Portugal, e tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

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Ilustrações: Bárbara Quintino, via Instagram @lendomulheresnegras

Vídeo: Lendo Mulheres Negras, via Instagram @lendomulheresnegras

Pesquisa do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea do coletivo de pesquisadores vinculado a Universidade de Brasília (UNB): https://www.gelbc.com/

Livro “Menina Nicinha”: https://www.lendomulheresnegras.com.br/menina-nicinha

Conheça o Projeto Lendo Mulheres Negras

Instagram: instragram.com/lendomulheresnegras

Facebook: www.facebook.com/lendomulheresnegras/

YouTube: www.youtube.com/c/LendoMulheresNegras

Site: www.lendomulheresnegras.com.br

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