Saber Ancestral

Do mestre ao moço são transmitidos conhecimentos essenciais para uma pescaria produtiva

Por Carlos Augusto e Arnaldo Souza

Foto: Rede social de Luis Antônio, mestre de pescaria

A pesca artesanal é uma atividade milenar, que contém elementos culturais de matriz indígena e afro-brasileira em sua produção, realizada por grupos ou de forma individual. Exercida de várias formas, seja com rede de arrasto, com linhas, com manzuá ou mariscando é uma atividade tradicionalmente passada por gerações, através dos costumes familiares. A forma de produção tem uma relação peculiar de preservação da natureza.
Uma prática tradicional da atividade pesqueira é a transmissão de saberes, em que o mestre da pescaria, aquele que detém os conhecimentos empíricos do horário das marés, da posição dos ventos e dos locais ideais para uma boa pescaria, transmite na prática seus conhecimentos para o moço.
O pescador André Luis Silva Santos, 24 anos, da Comunidade Remanescente de Quilombo Conceição de Salinas, no município de Salinas da Margarida, no Recôncavo Baiano, estuda Licenciatura em Educação Física, no Centro de Formação de Professores (CFP), mas aproveita os recessos das aulas para voltar a pescar em sua comunidade. Ele tem vivência com a pesca desde pequeno, quando era levado pelos seus avós para a maré porque eles não tinham com quem deixá-lo. Foi em muitas destas experiências que André se divertia na praia e conhecia os nomes dos pescados. Hoje, reconhecido como um mestre de pescaria pelos pescadores do Quilombo, ele fala com autoridade sobre como é idealizado o conceito de mestre na arte da pesca.
“O papel do mestre na pesca artesanal, a gente tem tipo uma hierarquia e todos os pescadores são considerado os mestres do saber. Só que não é um saber que a gente aprende na academia, mas é o que a gente aprende com a vivência dentro da pesca e que é passada por gerações. É uma cultura. É ancestral, que vai passando de pai para filho e assim sucessivamente”.

Hierarquia no comando

Para explicar com detalhes o papel do mestre, André trouxe uma ilustração.
“Nesta hierarquia que a gente tem na pesca, ele é o que comanda. É como se fosse um engenheiro em uma obra, aquele que diz para onde vai e diz o que é que tem que ser feito. Então, o mestre tem este papel, é aquela pessoa mais experiente, que já está dentro da pesca por mais tempo, tem mais experiência e comanda aquela pesca. A gente sai para pescar com duas ou três pessoas e ele diz para onde vamos, aonde bota proa (a direção). Ele é a pessoa que fala se no dia a gente vai pescar, se está bom para ir pescar hoje, se não estiver a gente não vai. Então, o mestre é aquela pessoa que tem poder dentro daquele barco, no momento que a gente sair para a arte de pescar”, explicou.
Segundo André, o moço tem que estar atento aos ensinamentos do mestre, já que é na prática que são transmitidos os conhecimentos.
“O moço é aquele que fica à mercê do comando do mestre, é aquele que obedece e executa algumas coisas. Muitas vezes é aquele que têm menos experiência ou não, porque muitas vezes a gente vai pescar e às vezes têm dois mestres na canoa. Tem gente que no barco é mestre, mas com outra pessoa ele já é moço porque ele reconhece a experiência que outra pessoa tem, entendeu? E muitas vezes vão pescar duas pessoas com experiências só que um tem que ser o mestre. Um tem que ser o comandante daquele barco e o outro tem que obedecer. Não que o mestre não escute o moço, porque há uma conversa, há um entendimento dentro do barco, mas a última palavra é sempre do mestre e o moço é aquele que executa as ordens do mestre dentro do barco”, explicou.

Formas de pescar

Foi no Quilombo Salamina Putumuju, situado no município de Maragogipe, que Emílio Costa Borges começou a pescar apenas com 12 anos. Emílio relata que a pesca artesanal é uma herança de muitas gerações e que o seu pai foi quem o influenciou para que ele aprendesse a arte de pescar. Ele relembra com entusiasmo como foi o momento que aprendeu com seu pai a arte de uma boa pescaria.
“Meu primeiro contato com o mundo da pesca foi muito bom porque havia muitos pescados e também pescava entre família, com meu pai em especial”, disse.
Desde a juventude, Emílio aprendeu a importância da pesca autossustentável.
“A minha relação com meu território é de harmonia no sentido amplo da palavra, pois entendo o quanto é importante preservar o nosso território, utilizando-se dele com responsabilidade e respeito para que as gerações futuras possam ter como sobreviver”.
Atualmente, Emílio pesca com redes com malhas de número 20 e 25, em um grupo familiar, com Nadson Costa Borges e Hélio Costa Borges. Emílio nomeia os pescados que capturam: “Pescadas, Cutupanhas, Tainha, Camarão Branco, Camarão Vermelho, Papaterra, Massambê… esqueci de especificar: Pescada amarela, Pescada branca, dentre outros”, disse.

Foto: Emily Chaves

A marisqueira Maria José de Jesus, do município de São Félix, começou a captura de ostra, sururu, siri, mirim, desde os dez anos para ajudar seus pais no sustento da casa. Hoje, aos 60 anos, continua pescando com todo vigor com a sua canoa de madeira, às margens do rio Paraguassú. Segundo Maria, foi na maré que ela teve momentos marcantes, inclusive o nascimento de um de seus filhos. Por isso, quando ela está na maré, se sente em casa.
“Ah, eu gosto! A minha vida é essa aí [pescar]. Eu já acostumei. No dia que eu não venho, pergunte a minha filha aí, eu fico doente. Eu gosto mais de pescar. Eu gosto de ficar no meio d’água ai ó. Aí estou bem. Aí não tendo aqui [o rio] Ave Maria, pra mim perdeu o dia”, disse Maria José enquanto pescava.
Para o Antropólogo Samyr Uhuru, o fato da pesca artesanal ser uma atividade milenar, significa dizer que os pescadores e pescadoras estabeleceram uma relação bastante peculiar com os recursos naturais e com o meio ambiente. “Sem dúvida as diversas estratégias utilizada pelas comunidade pesqueiras garantiram e garantem ainda, a preservação dos seus territórios e dos territórios tradicionais. E, mesmo com esta importância que eu estou te falando das comunidades pesqueiras resguardarem os territórios tradicionais, a importância econômica e cultural da pesca artesanal, é possível observar que o Estado brasileiro sempre desconsiderou a sua importância e atualmente desenvolve uma série de políticas desenvolvimentistas, favorecendo o avanço dos grandes projetos econômicos sobre os territórios tradicionalmente utilizados pela comunidade. O modelo de desenvolvimento econômico adotado pelo Estado vem ameaçando a existência dos territórios pesqueiros e, consequentemente, patrimônio cultural dos pescadores e pescadoras artesanais”.

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