Sofrer não é normal

Quando a Universidade se torna gatilho para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade.

Por: Gabriella Freitas e Janeise Santos

Ilustração: elesq | Arte final: Janeise Santos

Quem já passou pela fase da graduação ou pós-graduação conhece os impactos que a carga de estudos pode causar no corpo e na mente do estudante. Muitas pessoas acreditam que o vestibular é a fase mais difícil que vai passar durante a sua vida estudantil, no entanto, uma vez que a vaga no curso escolhido é conquistada, vários desafios inesperados podem surgir e acabar causando um desequilíbrio emocional e psíquico nessas pessoas. 

O estudante de nutrição, Rafael Ferreira, desenvolveu transtorno de ansiedade ainda durante a vida escolar, mais precisamente durante o ensino médio. Com a pressão familiar para ingressar no curso de Direito, o estudante teve que enfrentar quatro semestres de um curso indesejado, lidando com a falta de pertencimento e sobrecarga acompanhada por muitas horas de estudo, o que acabou gerando crises existenciais. “Eu sofri bastante. Principalmente em época de prova. Eram períodos curtos para materiais extremamente densos. Perdi muitas noites durante esse período. O pior é que eu sempre tinha em mente que aquilo não era suficiente e que eu precisava dar mais de mim. Eu estudava para garantir maior conhecimento e ao mesmo tempo perdia minha saúde mental”.

O ingresso na universidade promove diversas adaptações e mudanças na vida dos estudantes, e ao encarar esses novos desafios, muitos começam a desenvolver sintomas de estresse, depressão e ansiedade. O nível de exigência das disciplinas, dúvidas em relação ao futuro, competições dentro das salas de aula, preocupações com estágios, são alguns dos fatores que podem explicar o surgimento desses transtornos.  

Renata Teles, recém-graduada em Museologia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), sentia dificuldades na hora de fazer apresentações em sala, além de sempre estar com o sentimento de insegurança em relação ao curso escolhido. A pressão de ter que seguir os passos das irmãs, que já estavam em uma pós-graduação, o medo de não conseguir trabalhar após a formatura, eram gatilhos para a sua ansiedade. “Minha ansiedade me fazia acreditar que eu era incapaz, que não conseguiria nada na vida, que não era boa em nada e eu estava sempre me comparado com os outros e me sentindo inferior”, contou.

 “Antes de apresentar trabalhos sinto dores na barriga, tremedeira, taquicardia, suor frio e não consigo comer. E essas coisas só melhoram depois que eu termino tudo. Sempre bate aquela sensação de que se eu não fizer de imediato, não vou dar conta depois”, conta Millena Beatriz, graduanda em Recursos Humanos pela Unijorge. Ela sofre com problemas de ansiedade desde a infância, e relata também que durante o período do vestibular, tinha crises constantes e já ficou várias vezes sem sair do quarto em busca de isolamento. 

Wellington Barbosa, graduando em Licenciatura em História pela UFRB, também descobriu os indícios da ansiedade na infância e agora que está em processo de TCC, sentiu a necessidade de buscar ajuda de um profissional. “Apesar de apresentar todos os sintomas da ansiedade, fui diagnosticado pelo psicólogo com Cansaço Psicológico e que isso está afetando meu físico. Eu sinto formigamentos, dores no corpo, cansaço excessivo e todos ligados a isso”, ressaltou. 

De acordo com uma pesquisa divulgada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em 2016, 30% dos alunos de graduação em instituições federais no Brasil buscaram atendimento psicológico dois anos antes de entrar e mais de 10% fizeram uso de algum medicamento psiquiátrico. 

Algumas universidades têm se mobilizado e disponibiliza profissionais para que seus estudantes tenham atendimento psicológico, mas outras não dispõem desse mesmo cuidado e o estudante está por conta própria. O estudante do sexto semestre de Nutrição pela Unifacs, Matheus Garrido, declarou que em momentos de crise de pânico não pôde contar com a colaboração da instituição, que não dispõe de atendimento psicológico em todos os campus e possui um quadro de professores despreparados para lidar com determinadas situações. “Eu nunca tive apoio da instituição e nem dos professores. A faculdade só se manteve um bom lugar para mim, por causa dos meus amigos. O sistema implantado é totalmente disperso. Os professores não se importam com o bem estar dos alunos. Sem falar que a  comunicação da faculdade é totalmente distante de nós”, declarou.

A euforia de entrar em uma universidade acaba se transformando em angústia e tristeza, e o curso dos sonhos revela-se fonte de hostilidade.  Ao se deparar com a pressão por notas altas, dificuldades financeiras para se manter no curso, a carga horária de aulas excessiva e outros fatores que são gatilhos, os estudantes  acabam tendo seu quadro evoluído para uma depressão, que às vezes resulta no trancamento do curso, desistência e em alguns casos mais graves, o suicídio. E este é um sinal de alerta para as instituições de ensino superior.

 

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