“Te pego na saída”

Violência em escolas da zona rural de Muritiba

Por: Adailane Souza e Bruno Brito

Foto: Claudemir Galvão

Frases como “Te pego na saída”, “Se contar para sua mãe, você vai ver o que vou te fazer”, “Se você não me entregar seu lanche, eu vou te bater” são expressões que já caíram na rotina e não causam mais tanto medo. A escola parece ter deixado de ser local seguro. Nos últimos tempos, tem sido comum vermos uma série de notícias envolvendo episódios de violência no ambiente escolar, que acabam comprometendo o desenvolvimento dos alunos e provocando uma sensação de medo e insegurança no espaço antes reservado para aprender. Professora da rede estadual de ensino, Mariana Guimarães, 32 anos, diz que a violência atrapalha no desempenho dos alunos porque isso acarreta também problemas psicológicos. “Atrapalha, porque aqueles poucos que conseguem ter um ambiente familiar saudável, não estão acostumados a presenciar atos violentos com relação aos seus colegas ou dentro do colégio, então hoje a gente vê muitos alunos com distúrbios, transtornos de ansiedade, com vários problemas psicológicos relacionados a essas questões”.
Nas escolas da zona rural de Muritiba, os relatos de violência não consistem apenas em casos que envolvem armas ou agressões físicas, nem se confundem em ocasionais brigas de alunos. Existem também casos de violência simbólica que ocorrem o tempo todo, como o bullying, sem contar os episódios envolvendo as questões raciais, infelizmente bastante comuns e corriqueiros dentro dos espaços escolares. Casos que acabam passando despercebidos.
Professor de História em uma rede de ensino da zona rural de Muritiba, Jhoilson Fiuza, 27 anos, explica que é muito fácil os alunos entrarem nas escolas portando armas ou drogas, inclusive com bebidas alcoólicas. “Já presenciei em alguns momentos, em escolas em que eu trabalho, principalmente à noite, que não existe um programa, um projeto organizado e até mesmo preventivo para impedir a entrada desses elementos no espaço escolar”, ressaltou.
Um morador da localidade de Pernambuco, identificado como J.S., relatou que a segurança nas escolas da zona rural de Muritiba é muito frágil. “Não existe nenhum tipo de guarda para garantir a segurança, o acesso de pessoas que não fazem parte da instituição também é muito fácil”, diz ele. E acrescenta: “Aqui tinha um curso de pré-vestibular e Educação de Jovens e Adultos – EJA, onde os próprios alunos levavam licor, usavam drogas. houve dias em que os professores tinham que suspender as aulas pela questão do cheiro da droga, que incomodava”, acrescentou. Situações como essas acabam interrompendo sonhos de um futuro melhor.

Violência entre alunos

Conforme o Diagnóstico Participativo das Violências nas Escolas, feito pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais em parceria com o Ministério da Educação, 69,7% dos jovens afirmam terem visto algum tipo de agressão dentro da escola. Em 65% dos casos, a violência parte dos próprios alunos; em 15,2%, dos professores; em 10,6%, de pessoas de fora da escola; em 5,9%, de funcionários; e em 3,3%, de diretores.
O estudo foi realizado com a colaboração de professores e alunos das últimas séries do ensino fundamental, do ensino médio, e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) que foram capacitados para atuar no processo de diagnóstico, em escolas de sete capitais: Maceió (AL), Salvador (BA), Fortaleza (CE), Vitória (ES), São Luís (MA), Belo Horizonte (MG) e Belém (PA).
Durante o mês de maio, foram aplicados 25 questionários em três escolas da Zona Rural de Muritiba e de acordo com as respostas, foi observado que os tipos de agressões mais comuns entre os alunos são brigas, xingamentos e ameaças.
Professora da rede estadual, Mariana já passou por situações de violência em sala de aula. Ela relata alguns dos casos que, inclusive, tentou separar. “São muitos casos de violência, inclusive já fui tentar separar, já levei um murro, já corri atrás de aluno com resto de carteira na mão, querendo jogar no outro, meninas se estapeando violentamente, a gente sempre sai arranhada e abalada emocionalmente, porque a gente não sabe o que espera eles lá fora”.
O professor Jhoilson acredita que casos de violência escolar também estão ligados a questões sociais. Ele defende que a instituição escolar tem condições de combater essas situações e acha importante que o enfrentamento dessas violências não ocorra apenas por via policial.

No dia 3 de abril deste ano, um fato assustou os alunos e funcionários de uma escola estadual de São José do Itaporã, distrito de Muritiba: um estudante de 17 anos foi esfaqueado por outro aluno de 22 anos, dentro da escola. Na oportunidade, a vítima foi encaminhada para o Hospital Regional de Santo Antônio de Jesus. Na unidade hospitalar, o jovem passou por cirurgia e iniciou sua recuperação. Dois meses após o acontecido, o aluno já está recuperado e já está frequentando as aulas normalmente.

Bullying e Racismo

Os casos de perseguição/intimidação são recorrentes em qualquer escola ou segmento, e isso tem ganhado proporções gigantescas. Eles não são recentes, existem há muito tempo, antes mesmo de a palavra bullying ser designada.
O professor Jhoilson fala sobre o desconhecimento de muitos professores, coordenadores e até mesmo a falta de entendimento que acaba por colocar diferentes situações na mesma ordem. “Muitos casos de racismo tem acontecido e a gente tem tratado como bullying, eu acho que em ambos os casos, tanto a violência simbólica no sentido do racismo, quanto da perseguição, é importantíssimo o diálogo com esses alunos e com a família. Eu acho que os casos devem ser tratados preventivamente, antes de ganharem proporções gigantescas. Isso acontece a partir do momento que a família está presente dentro desse espaço escolar”.
Ambos os casos humilham, causam medo e transtornos psicológicos. É importante as escolas encontrarem caminhos para lidar com questões como essas, é essencial reunir profissionais, como: psicólogos, conselheiros tutelares e assistentes sociais que possam contribuir para o desenvolvimento de um diálogo mais aberto a respeito das necessidades dos estudantes. O envolvimento das famílias na vida escolar dos filhos é essencial.

Foto: Bruno Brito
Foto: Bruno Brito

Medidas preventivas

O professor defende que não exista uma medida que solucione todos os problemas de violência no âmbito escolar. “Os problemas não são resolvidos apenas com a ajuda da polícia dentro dos espaços escolares, mas é fundamental ter formação psicopedagógica e socioeducativa, que possam amenizar os problemas. Além disso, os casos de violência nas escolas interferem no rendimento dos alunos, não só do agressor e da vítima, mas de todos os alunos da instituição.”
Os estudantes devem se sentir seguros no ambiente escolar, pois é na escola que começamos a escrever nossa história, acreditar que a educação pode mudar o mundo. Não deixemos que a violência presente em nosso meio, acabe com projetos e sonhos dos jovens.
Não podemos trocar o lápis e caneta por armas, pelo contrário, os alunos devem se munir de livros e embarcar em uma viagem em busca do conhecimento.

Foto: Adailane Souza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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