TinTim Gomes amplia conexão com públicos de reggae na pandemia

Artista independente de Cachoeira conta que contornou dificuldades com afastamentos dos palcos provocados pelo distanciamento social

Júlia Maciel

TinTim Gomes produzindo com Os Remanescentes/ Foto: Lifeson Padilha (@lifesonspadilha)

Tintim Gomes é um dos pioneiros no movimento de reggae na Bahia, mas, apesar da sua carreira ser consolidada, o cantor sempre passou por dificuldades por ser um artista independente do recôncavo baiano. Com a pandemia da covid-19, essas adversidades continuam, mas novas possibilidades surgiram na sua carreira neste período de distanciamento social.

O cantor de reggae Edmundo Silva Gomes, mais conhecido como Tintim Gomes, nasceu na cidade de Cachoeira, Bahia, no dia 26 do mês de maio de 1962. Sua carreira começou na escola, onde participava de eventos cantando as músicas mais tocadas do rádio. Logo depois, Tintim começou a acompanhar seu irmão Edson Gomes, fazendo o backing vocal e arranjos dos shows e do primeiro LP “Reggae Resistência”. Fez parte do grupo musical Remanescentes e da  banda Manassés.

Com a pandemia do Covid-19, que teve início em 11 de março de 2020 , confirmado pela Organização Mundial da Saúde, o país entrou em quarentena e as atividades não essenciais foram proibidas, isso inclui shows e festivais. Com o distanciamento social, Tintim como a maioria dos artistas que dependem de públicos para se apresentarem, ficou sem poder fazer seus shows, que realizava com mais frequência em bares e praças das cidades de Cachoeira e São Félix, na Bahia. Essa foi uma das maiores dificuldades trazidas pela pandemia. “Então as dificuldades começaram por aí. Em não poder mais fazer aglomerações. Então os eventos começaram a ficar impraticáveis. Essa foi uma das dificuldades principais, que tornou tudo inviável”.

Tintim relata que o empecilho de não conseguir fazer show vem antes da pandemia, que, como artista independente de reggae, infelizmente é normal para ele ficar sem se apresentar por um longo período. “O reggae, como você bem sabe, não é um estilo musical que é divulgado pelo sistema. Nós não temos muitas oportunidades de trabalho, de conseguir um contrato, ou participar de eventos que sejam relevantes, como um evento que é nacional, que é anual. Nós não temos muitas oportunidades de trabalho, então, a dificuldade sempre foi o nosso problema, o nosso natural, o nosso dia-a-dia”.

Ser um artista de reggae independente é uma profissão muito incerta, pela falta de incentivo, patrocínios, contratos, convites para shows. Muitas vezes esses artistas têm que buscar outras rendas para o seu sustento e da sua família. Tintim já teve diversos empregos paralelos com a música, ele já foi servente em obras e já vendeu salgados. Tudo isso para se manter, pois só trabalhar de música não estava suprindo as suas necessidades. E agora com covid todas as dificuldades se intensificaram.

Tintim não contou com muita ajuda financeira para resistir a esse momento pandêmico. Não pode ser contemplado com o auxílio emergencial do governo federal, já que é aposentado. E o governo municipal só o auxiliou uma vez através da Lei Aldir Blanc, durante a pandemia ele foi contemplado na categoria de premiação, ganhando uma única parcela de R$1.100 mil. Valor insuficiente para o manter durante todo o período afastado dos palcos.

 O cantor de reggae criticou o valor dessa bonificação, afirmando que os responsáveis não levaram em conta que os artistas independentes não são trabalhadores de carteira assinada, portanto muitos não têm uma renda fixa, e nesse momento precisavam de uma ajuda financeira contínua para continuar vivendo as suas vidas. Ele questiona também o fato deles não terem considerado que esses artistas muitas das vezes exercem mais de uma função no meio musical, muitos são cantores, compositores, produtores, ao mesmo tempo. E acabou que não receberam um auxílio referente a todas as profissões que eles possuem.  “Que dizer, como a gente pode ganhar mil reais uma única vez, e não ter algumas parcelas? Então faltou pensar nesse lado, mesmo que fosse mil reais, pessoalmente,  mas que não fosse uma parcela só, né? Porque a gente tá vivendo a vida também.”

Elba Matos, secretária de cultura da cidade de São Félix-BA, informou que como o município não dispõe de fundo municipal, o governo fica impedido de desenvolver outras ações que não sejam pequenas atitudes pontuais, como apoiar as lives e deslocamentos. Mas ressalta que a prefeitura implementou a Lei Aldir Blanc que contemplou 12 espaços e cerca de 135 fazedores de cultura via premiação, com recursos federais. E que estão tentando achar formas de amparar os artistas. “Está sendo estudada uma forma de ajudar os artistas uma vez que a pandemia se estendeu mais do que o previsto.”

 Realização de “lives” como alternativa

Live do Tintim Gomes e banda/Print da Live – Tintim Gomes e Banda)

O distanciamento social acabou proporcionando novas possibilidades para o cantor. Sem poder fazer seus shows presencialmente, a única solução foi recorrer a apresentações onlines através de lives, que foram realizadas no canal do seu filho Nathan Gomess. Mas realizar essas produções não foi tão fácil assim. Para se apresentar na internet, Tintim teve que pedir ajuda aos seus amigos para custear os gastos que teria na produção e execução do evento, já que teve que pagar o estúdio onde foi realizado a performance, a banda e outros gastos adicionais. Só os shows que são acústicos que o cantor tem despesas menores, pois são realizados só por ele e seu filho, e não tem a necessidade ser em estúdio. Mas independente do tamanho da exibição ou do tipo, o cantor ainda tem que pagar pelos custos, sejam eles grandes ou pequenos.

Começar a fazer lives foi uma experiência totalmente nova para Tintim, mas ele não estranhou muito o novo formato onde não pode ver os seus fãs, já que o cantor está acostumado a ter um distanciamento do público, pois já cantou para plateias pequenas, já iniciou shows sem a presença de espectadores e ao longo da apresentação as pessoas foram chegando. Então esse formato não foge muito do que o cantor já está acostumado.

Mas essa noção de distanciamento dos fãs mudou quando ele percebeu a quantidade de pessoas que estavam assistindo a sua transmissão online, o cantor de reggae ficou muito feliz em estar conseguindo um maior alcance, maior até do que em seus shows presenciais. “Então para mim não foi coisa estranha, ficou ótimo saber que tinham muitos espectadores assistindo aquela live. Então era como se eu estivesse vendo as pessoas também. Eu me senti muito bem, muito à vontade fazendo a live, porque eu sabia que estava tendo até um alcance maior do que um show ao vivo assim com público presencial, a depender do local onde eu estivesse fazendo esse show, não teria tanto público como eu tive na live.”

(Tintim Gomes cantando “ Zenaide” em live/Print da Live – Tintim Gomes e Banda

Tintim Gomes gostou tanto de fazer live que já pensa na possibilidade dessa ferramenta permanecer depois que a pandemia acabar. Cogita a possibilidade de fazer shows online quando não for possível fazer presencial, devido a um dia chuvoso, a algum imprevisto que ocorra e impossibilite o show de acontecer no local determinado. O cantor vê essa ferramenta como uma nova possibilidade de fazer a sua arte e ganhar o seu dinheiro.

 

A internet auxiliando na permanência

Perfil do cantor no Instagram/@tintim_gomes

As redes sociais possibilitam o contato das pessoas com o mundo. É através delas que muitas pessoas estão conseguindo trabalhar. Tintim é uma dessas pessoas que foi contemplada com o uso do meio de comunicação. Como um cantor local, antes da pandemia ele só cantava pelas redondezas e acabava não tendo um grande alcance. A sua música era conhecida em sua grande maioria por pessoas do recôncavo.

 Com a pandemia Tintim teve que recorrer às redes sociais para dar continuidade a sua arte. E esse ingresso, segundo Tintim, ocorreu devido ao momento pandêmico que estamos vivendo.

“Então essa pandemia deu oportunidade a mim e a muitas outras pessoas de aparecerem um pouco mais, fazendo uma live pela internet, que tem um longo alcance… A depender do canal onde está sendo transmitido.  Pessoas de outras localidades, de outros estados e até países estarão assistindo aquela apresentação em algum momento em que está acontecendo ou então depois até por acaso pesquisando em alguns canais.”

Tintim passou a fazer seu show online, a divulgar as suas músicas para um número maior de pessoas, já que a internet não se limita a regionalidade. E o cantor de reggae ficou surpreso positivamente com o alcance que ele está tendo nas redes, e com o público diverso que ele conquistou. “Então eu acredito que pra mim redundou em benefício, porque eu me aproximei mais de meu público… Estou muito mais conectado agora com ele do que antes, porque agora tenho que usar muito mais a internet, as redes sociais para estar em contato com essas pessoas que apreciam meu trabalho e que seguem a minha trajetória. Isso é muito importante”.

A motivação para resistir

Foto retirada do Instagram do cantor/@tintim_gomes

O cantor Tintim Gomes passou e passa por diversas dificuldades no seu meio artístico, e esses obstáculos já existem bem antes da pandemia. Mas a motivação que o cantor de reggae tem nunca o deixou desistir do seu objetivo de levar uma mensagem de luta, de direitos, e de fé para o seu público através das suas músicas.

“A minha motivação nunca esmoreceu, nem nunca esmaeceu. Porque eu tenho um objetivo que é levar a boa música, com uma mensagem de conscientização. Seja de cunho de mensagem de reivindicações de direitos iguais, direitos humanos… E também levar uma mensagem espiritual, dizendo para as pessoas que Jesus Cristo é vida para nós.”

Se não houvesse esse objetivo Tintim não começaria a sua carreira musical, ele diz que se fosse para cantar só por cantar, sem levar uma mensagem importante para o seu público, ele não cantaria, nem se fosse pra ganhar dinheiro. “Eu cantaria apenas para mim, se eu cantasse somente, como digamos assim entre aspas, abobrinha. Eu cantaria só para mim.”

A fé do cantor o move e ela é um grande incentivo para ele continuar a cantar, e ter energia para passar as adversidades da vida. Acredita muito em uma palavra que está na bíblia no livro de Romanos, que, segundo ele, dá forças para ele seguir em frente. “Todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus, os que são chamados por seu decreto. Amém!”

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