Sociedade de consumidores e o desinteresse pela esfera pública: escravização invisível e a política instrumental em Hannah Arendt

Palavras-chave: Sociedade de Consumidores; Política Instrumental; Ciclo Vital.

Resumo

Erigir o aumento da riqueza e da abundância como um objetivo primordial para a vita activa já se desenhava como premissa axiomática da economia política clássica, além do sonho idealizado dos pobres e despossuídos. Havia, no entanto, certa esperança utópica de que, ao viver em uma sociedade com maior abastança, as pessoas cidadãs buscariam mais plenamente o desenvolvimento de apropriada abstenção consciente do trabalho e do consumo em seu tempo livre, ou seja: que isento da dor e do esforço de trabalhar e consumir, o animal laborans tornar-se-ia produtivo para si próprio, nutrindo-se de atividades “superiores”. No entanto, de quanto mais horas vagas dispõe o laborans, maiores são seus apetites de consumo e, sobretudo, uma sociedade abundante expõe devidamente a falácia do raciocínio anterior, uma vez que tudo pode ser reificado e comercializado. Esse artigo pretende analisar o fenômeno da sociedade de consumo contemporânea como engrenagem do ciclo vital, descrevendo de que modo, presas em seus próprios processos de trabalho e consumo, as pessoas cidadãs desfrutam apenas de uma política instrumental. Essa alienação promove a vitória do animal laborans sobre o zoon politikon.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Kelly Janaína Souza da Silva, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Doutoranda em Filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis – SC, Brasil, com período sanduíche em Freie Universität Berlin (FU Berlin), Berlim, Alemanha. Bolsista do(a): Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CAPES, Brasil.  Bolsa CAPES/PROEX.

Referências

ARENDT, Hannah. Vita activa oder Vom tätigen Leben. Stuttgart: Kohlhammer Verlag, 1960.

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

ARENDT, Hannah. A condição humana. 10 ed. Tradução R. Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.

ARENDT, Hannah. A vida do Espírito. O Pensar, o Querer, o Julgar. Tradução de Antônio Abranches. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

ARENDT, Hannah. Trabalho, obra, ação. Tradução Adriano Correia. Cadernos de Ética e Filosofia Política, São Paulo, n. 7, v. 2, p. 175-201, 2005.

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução R. Raposo, revisão técnica: Adriano Correia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

BONFIM, C. A despolitização moderna à luz do pensamento de Hannah Arendt. Cognitio Estudos: São Paulo, v. 8, n. 2, p. 86-95, 2011.

CONSTANT, Benjamin. Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos. Trad. L. Silveira. Revista de Filosofia Política, n. 2, p. 15, inverno/1985.

CRARY, Jonathan. 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono. Tradução: Joaquim Toledo Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

DELEUZE, Gilles. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: 34, 1992.

DUARTE, André. Hannah Arendt e a modernidade: esquecimento e redescoberta da política. In: CORREIA, Adriano (org). Transpondo o abismo: Hannah Arendt entre a filosofia e a política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Trad. L. M. P. Vassallo. Petrópolis:Vozes, 1987.

TOCQUEVILLE. A democracia na América. Trad. João Miguel Pinto de Albuquerque. São Paulo: Nacional, 1969.

Publicado
2019-06-13
Como Citar
SILVA, K. Sociedade de consumidores e o desinteresse pela esfera pública: escravização invisível e a política instrumental em Hannah Arendt. Griot : Revista de Filosofia, v. 19, n. 2, p. 218-229, 13 jun. 2019.
Seção
Artigos