Resumos das Mesas

MESA REDONDA 1 – INQUISIÇÃO E SEXUALIDADES
Da Solicitação ao Nefando: Inquisição, repressão à sexualidade e cotidiano dos desviantes
Coordenador: Luiz Mott
Dentre os crimes do conhecimento do Santo Ofício em Portugal, além das heresias formais, constava a perseguição de “desviantes sexuais” convencidos no crime de sodomia, dos padres que praticaram a solicitação para atos torpes no confessionário e dos bígamos. Destes crimes, a sodomia foi o único passível à morte na fogueira, sendo os sodomitas, depois dos cristãos-novos, o grupo mais severamente reprimido pela Inquisição. Essa mesa redonda está aberta à discussão desses desviantes sexuais, enfatizando suas trajetórias de vida, seu cotidiano, os impasses e estratégias dos réus desses crimes no enfrentamento da máquina persecutória. Estimula-se igualmente aos participantes avançar na discussão, sob a perspectiva dos acusados e dos inquisidores, se tais desvios eram ou não considerados como heresia.

  • Sodomita fugitivo e Teólogo eminente: Frei Inácio Coutinho, O. P.
    (Lisboa, 1590 – Sevilha,1647)
    Luiz Mott (Universidade Federal da Bahia)
    O dominicano Frei Inácio de Coutinho, preso pela Inquisição de Lisboa em 1636, reúne em sua biografia dois destaques antagônicos na história sacra de Portugal: primeiro, caso raríssimo, conseguiu exitosamente fugir do convento onde deveria purgar dez anos de reclusão estrita devido à sua condenação pelo Santo Ofício pelo abominável pecado de sodomia; segundo, está entre os teólogos lusitanos que teve o maior número de suas eruditas e prolíferas publicações, mais de 8 mil páginas, escritas em três línguas, português, espanhol e latim. Suas obras e breve biografia são citadas por uma dezena de autores, sobretudo na sua Biblioteca Lusitana, saudado como “um dos mais célebres oradores evangélicos que venerou a sua idade: nos Estudos Escolásticos saiu tão profundamente versado que depois de Presentado em a Sagrada Teologia, ditou a Moral em a Sé da cidade do Porto.” Chegou a ser Comissário do Santo Ofício, sem qualquer referência a sua vida de “sodomita encoberto”, iniciada aos 18 anos, quando era corista no Mosteiro de Benfica. Por um quarto de século Frei Inácio praticou secretamente o mau pecado com uma dezena de cúmplices, notadamente frades, pajens e rapazes ainda imberbes, mais de uma trintena de “coxetas” e cópulas anais, mais como ativo, mas também passivo. Fugido do Convento Dominicano de Pedrógão Grande, obteve a proteção do Mestre Geral da Ordem dos Pregadores e comutação de sua sentença para degredo perpétuo para fora do Reino. Fixa-se em Sevilha onde continuou sua importante produção bibliográfica, pregador renomado em conventos reais, morrendo com fama de virtuoso aos 57 anos, vítima de uma devastadora epidemia. Além de resgatar a bio-bibliografia do eminente teólogo Frei Inácio Coutinho, ignorado até agora pela historiografia inquisitorial, avançamos na discussão sobre a sodomia como “vício dos clérigos” e o poder da Ordem de São Domingos dentro da máquina inquisitorial.
  • A jurisdição privativa da Inquisição Portuguesa sobre o delito de solicitação 
    Jaime Ricardo Gouveia (Universidade de Coimbra)
    Fruto do novo peso e importância que o espírito contra-reformista conferiu ao sacramento da penitência, as acções de solicitação passaram a ser conotadas como heresiarcas. A presunção de má doutrina, que se traduzia na linguagem da época por “sentir mal do sacramento”, como explicação para essas acções, faria incorporar o delito no naipe jurisdicional do Santo Ofício da Inquisição Portuguesa que, ainda antes de ter recebido competência oficial para o efeito, já o vigiava e reprimia de forma cumulativa com os tribunais episcopais, prática inequivocamente influenciada pela realidade verificada nos reinos espanhóis onde, em 1559, o Santo Ofício granadino adquirira essa competência, extensiva em 1561 a todos os demais.
    Apenas em 22 de janeiro de 1599 chegou a Portugal o diploma pontifício que munia oficialmente a Inquisição do poder de proceder contra solicitantes. Depois deste outros surgiriam como tentativa de identificar de forma precisa as circunstâncias de tempo e lugar compreendidas no delito. Esta comunicação visa esclarecer porque é que a Inquisição lutou arduamente para obter jurisdição sobre a solicitatio ad turpia, e como conseguiu dotá-la de um cariz privativo, inaudito no quadro dos demais delitos.
  • Sodomia, ascensão social e proposições heréticas: o lado oculto do Tribunal da Bula da Cruzada (1620-1645)
    Verônica Gomes (Universidade Federal Fluminense)
    Apesar do problema da confiabilidade da documentação inquisitorial para o estudo dos que passaram por seus cárceres, os processos dos sodomitas revelam várias questões essenciais, que vão muito além da perseguição do Santo Ofício ao crime nefando propriamente dito. Dessas fontes emerge um cenário heterogêneo, que revela a inserção dos transgressores em diversos setores da vida cotidiana, a exemplo do envolvimento em conflitos, em lutas pelo poder, em disputas por cargos e privilégios, desvelando que o “pecado nefando” foi utilizado, em certas ocasiões, como estratégia de ascensão social. Nesse cenário complexo estão inseridas as trajetórias de três oficiais do Tribunal da Bula da Cruzada (dois deles condenados à fogueira na primeira metade do século XVII), cujo principal elo foi D. António Mascarenhas, comissário geral da instituição, acusado de sodomia e de corrupção. O Tribunal da Cruzada foi criado em 1591 para administrar os rendimentos da bula, cujo poder indulgente podia atuar sobre uma vasta gama de transgressões morais. A ocupação de certos cargos no tribunal por indivíduos não qualificados e que mantinham relações homoeróticas entre si parece mostrar que eles foram obtidos em troca de favores sexuais, o que sugere que os privilégios recebidos pelos oficiais foram decisivos para a concretização da sodomia. Alicerçada num conjunto documental diverso, que incluem processos do Tribunal da Inquisição de Lisboa, e a partir do conceito de “rede clientelar”, a comunicação analisa os relacionamentos daqueles personagens e o provimento dos cargos na Cruzada, considerando o tribunal “como um lugar de organização de relações de poder”. As ligações entre as indulgências da bula e o discurso partilhado pelos homens vinculados à instituição ou aos seus oficiais, que afirmavam que “a sodomia não era nada”, que era uma “prática ordinária”, usual em Lisboa, apregoado, por exemplo, pelo padre e ex-comissário da Cruzada, António Álvares Palhano, que frequentava a casa de alcouce de um sacerdote e confessava os amantes, são aspectos relevantes para o entendimento desse imbróglio. Cabe tentar compreender também as razões que levaram Mascarenhas a defender que a bula permitisse aos religiosos, sem a licença de seus prelados, escolher confessor e absolverem-se os casos reservados, o que gerou muito descontentamento.
  • Por uma Geografia do Nefando: espaços de socialização homoerótica destruídos pela Inquisição portuguesa (1620-1645)
    Wallas Jefferson (Universidade Federal do Paraná)
    A ocupação dos espaços pelos sodomitas presos pelo Tribunal do Santo Ofício durante o Antigo Regime não é um tema amplamente debatido nos estudos inquisitoriais. Entretanto, as fontes históricas trazem fartas evidências de que locais como estalagens, casas, igrejas, mosteiros, praças, adros e becos eram constantemente utilizados pelos nefandos para a prática sexual ou como ponto de encontro. É preciso indagar o que e como era a estrutura do espaço dentro do qual esses homens agiam, operavam e se relacionavam. Tais locais assinalam, em primeiro lugar, o quadro determinante dos espaços de sociabilidade homossexual que ajudaram a construir durante o século XVII. Mais do que isso: a capacidade de produzir espaços a partir de vivências proibidas era um poder mediante o qual os sodomitas, excluídos social e moralmente, subvertiam a ordem das coisas. Esta comunicação oferece uma breve síntese desses espaços de sexualidade, focando a análise na cidade de Lisboa, entre os anos de 1620 a 1645.

MESA REDONDA 2 – INQUISIÇÃO E DIÁSPORA
Coordenação de José Alberto Rodrigues da Silva Tavim
Centro de História; Chair: Seminário Os judeus em Portugal e na Diáspora
Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa
Esta mesa temática apresenta um conjunto de comunicações em que a relação entre Inquisição e Diáspora será focada não apenas no âmbito dos binómios tradicionais de perseguição e fuga, ou de repressão e reacção, mas também em outras dimensões complexas como o acompanhamento da Diáspora pelos tribunais inquisitoriais, a relação entre repressão e a constituição de uma nova comunidade judaica, ou pelo contrário, o seu fenecer, mesmo em terras longínquas – o que sugere um envolvimento ao nível das políticas locais – e  igualmente esse desconcertante eco das visões da Inquisição pelos homens já estabelecidos nas diferentes comunidades da Diáspora dos judeus portugueses e espanhóis.
A relação entre Inquisição e Diáspora mostra-se assim numa vertente dialéctica, em que a distância e a extradição não são sinónimos de ausência e oclusão.

  • A Meaningful Silence: The Escape of Crypto-Jews from the Iberian Peninsula to Bayonne (16-18th centuries), as Reflected in the Archives of Bayonne
    Nimrod Gaatone (Docteur en histoire / Centre Goldstein-Goren pour la recherche sur la diaspora – Universite de Tel-Aviv, Israel)
    The escape of Crypto-Jews from the Iberian Peninsula to the Southwest of France between the 16th and the 18th centuries has fascinated many scholars during the past two hundred years; but the evidence was incomplete. In the 19th century, essays published by local community members, Louis Francia de Beaufleury of Bordeaux, and Henry Leon of Bayonne, lacked precise references. During the last century, scholars such as Cecil Roth and, more recently, David Graizbord and Carsten Wilke, in their work on the rebirth of Judaism in Early-Modern France, relied particularly on the copious archives of the Iberian inquisitions.
    Another important scholar, Gérard Nahon discovered French government documents in archives in Paris and Bordeaux. However, Bayonne’s local archives, such as city council registers and notarial records were as good as ignored. Some scholars claimed that these archives were “silent” and lacked any reference to the Iberian newcomers.
    Were these archives silent? What were the reasons for such silence? Was that silence total? What can be learned from the primary sources in Bayonne about the arrival of the Iberian Crypto-Jews in that city?  These questions will be discussed in this paper. In addition, I will compare this case to the Bayonne archives’ references to other minorities, such as the Protestants and the Moriscos.
  • A Grande Cumplicidade de Lima (1635-39) e a aniquilação da comunidade conversa portuguesa no Peru
    Maria da Graça Ventura (Instituto de Cultura Ibero-Atlântica; Centro de História, FLUL)
    A comunidade de portugueses, sobretudo conversos, era a mais numerosa entre os estrangeiros. De diferentes procedências geográficas, do Norte ao Sul do país, dedicavam-se a diferentes ofícios. Contudo, era o comércio de negros, complementado com produtos da terra, da China e da Europa, que constituía a base das suas redes comerciais, em geral, de natureza familiar. O seu envolvimento no comércio regional e extrarregional e os laços que os uniam, de fé, de consanguinidade ou de uma pátria comum, facilitou as denúncias em dominó que culminaram no auto de fé de janeiro de 1639 onde a maioria dos condenados eram portugueses.
    Pretende-se, através de alguns percursos biográficos e de dados quantitativos, debater esta realidade que pôs fim à diáspora portuguesa no Peru.
  • A repressão além-fronteiras: as extradições de cristãos-novos entre as Inquisições ibéricas
    Ana Isabel López-Salazar (Universidad Complutense de Madrid)
    Desde antes da União Ibérica de 1580 e especialmente a pós a integração de Portugal na Monarquia Hispânica, muitos cristãos-novos trasladaram-se de Portugal para outros territórios ibéricos ou americanos. No entanto, isso não impediu que a Inquisição portuguesa continuasse a investigar as suas crenças, receber denúncias e iniciar processos contra eles. A mudança de residência para as Coroas de Castela e Aragão não acarretou a libertação dos cristãos-novos das malhas da Inquisição portuguesa, pois existiram diferentes mecanismos jurídicos que permitiram a perseguição dos hereges para além das fronteiras portuguesas. Nesta intervenção, centrar-nos-emos nos tratados de extradição entre as Inquisições ibéricas e nos casos concretos em que estas entregas de presos tiveram lugar.
    Palavras chave: Inquisição portuguesa, Inquisição española, cristãos-novos, extradições de presos.
  • A Inquisição vista da Diáspora nos séculos XVI e XVII
    José Alberto Rodrigues da Silva Tavim (Centro de História; Chair: Seminário Os judeus em Portugal e na Diáspora – Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa)
    Esta comunicação pretende apresentar uma multitude de “vozes” na Diáspora dos judeus portugueses, acerca da Inquisição, antes da publicação do mais acutilante texto do início do século XVIII, Notícias Recônditas.
    Como veremos, estas “vozes” são múltiplas e por vezes desconcertantes. Desde as alusões versificadas aos perseguidos e mártires – neste caso verdadeiro bastião da identidade sócio-religiosa assumida na Diáspora – até às evocações teleológicas, como a Consolação às Tribulações de Israel (1553) de Samuel Usque, e o Tratado da Verdade da Lei de Moisés, do haham Saul Levi Mortera (1659-1660), as considerações e interpretações da acção do tribunal revelam antes de mais os diferentes posicionamentos sociais dos seus autores, em contextos específicos.

MESA REDONDA 3 – INQUISIÇÃO, SOCIEDADE E PODER
La Inquisición vista desde abajo: testificaciones y deposiciones de gente corriente ante los tribunales de la Inquisición española y portuguesa.
Coordinador: Ignacio Pulido Serrano
El trabajo de investigación que se presenta en esta Mesa Redonda aborda la temática inquisitorial haciéndolo con un nuevo planteamiento y, también, por medio de fuentes documentales novedosas, en muchos casos desconocidas, las cuales proceden de distintos archivos de España y Portugal.
La inquisición vista desde abajo –el enfoque nuevo con el que se ha pretendido emprender nuestra investigación– ha colocado en el centro del análisis a las personas corrientes del pasado que se acercaron a los tribunales inquisitoriales para una vez ante ellos presentar sus deposiciones, acusaciones o testificaciones sobre asuntos de muy diversa índole. Tras el examen de estas fuentes documentales, ante nuestros ojos aparece toda una panoplia de creencias, miedos y prejuicios anidados en la cultura popular y en las mentalidades de las gentes de aquella época que ayudan a entender bien la realidad a la que hicieron frente los ministros del tribunal.
Con este singular enfoque, los cuatro investigadores que tratarán este asunto –cuatro profesores de cuatro universidades distintas: Bahía, Nueva York, Rabat y Madrid– han realizado un trabajo de investigación comparada que quiere invitar a los especialistas de estas áreas de estudio a discutir las posibilidades que ofrecen las citadas fuentes documentales y su utilización con estos nuevos enfoques. Así, los cuatro investigadores han utilizado para sus respectivos trabajos un material documental similar procedente de los archivos inquisitoriales –las llamadas series de testificaciones (España) y cadernos do promotor (Portugal) existentes en todos los tribunales de la Inquisición española y portuguesa­–, para comparar los análisis realizados y los resultados alcanzados en cada uno de ellos.

  • Las visitas de distrito en los libros de testificaciones: el Tribunal de la Inquisición de Cuenca en el silgo XVI.
    William Childers (Brooklyn College – Estados Unidos)
    En este trabajo se aborda una serie documental procedente de los fondos de la Inquisición de Cuenca (España), localizados en el archivo diocesano de esta ciudad, la cual se produjo al calor de las rutinarias visitas que los inquisidores del tribunal realizaban por el distrito inquisitorial de manera periódica. Las visitas, obligatorias según las instrucciones generales de la inquisición, sacaban al inquisidor de la ciudad y lo llevaban al espacio interior y rural de aquel mundo, y lo hacían durante un largo tiempo, en el cual los inquisidores entraban en contacto directo con realidades que suelen escaparse de la mirada del historiador. Producto de tales visitas inquisitoriales fueron los cuadernos de apuntes que quedaron recogidos en voluminosos libros de testificaciones para ser depositados en los archivos de distrito de la inquisición española.
    En este estudio se ha seleccionado una visita en particular de todas las existentes en el archivo de Cuenca: la de Priego en 1588. Con el estudio de esta documentación concreta se ha ensayado un método de análisis que se propone como posible modelo para los futuros estudios que se realicen a partir de esta fuente. Además, para complementar este trabajo, se han extraído elementos de extraordinario interés que nos muestran aspectos propios de los individuos y grupos que conformaron esta sociedad local del ámbito rural conquense. Aspectos que nos dejan ver el universo mental de estas gentes, sus creencias, ideas y actitudes ante cuestiones fundamentales que fueron propias del siglo XVI y lo han sido, también, de cualquier otro tiempo. También, ante la presencia del inquisidor-visitador (y ante la nuestra), se ponen de manifiesto las distintas formas que, con sus ricos matices, nos explican cómo fueron las relaciones sociales mantenidas entre los miembros de una pequeña localidad y las relaciones que aquella comunidad mantuvo con las autoridades a las que se sometió.
  • Los libros de testificaciones del Tribunal de la Inquisición de Toledo y Corte: testificaciones contra portugueses de Madrid en el siglo XVII.
    Ignacio Pulido Serrano (Universidad de Alcalá – España)
    En los fondos del Archivo Histórico Nacional de Madrid, en la sección dedicada a la Inquisición, existe una colección de alrededor de 100 libros con más de dos miles páginas cada uno de ellos donde se recoge una serie llamada “Libros de Testificaciones”. En estos libros se reúnen mayormente las testificaciones que desde finales del siglo XVI hasta principios del siglo XVIII realizaron gentes anónimas ante los ministros del tribunal de Toledo y del tribunal de Corte contra personas de las que se sospechaba, bien por sus creencias bien por sus comportamientos.
    En el trabajo que aquí presentamos hemos querido localizar y reunir una muestra cumplida de aquellas testificaciones realizadas durante las décadas centrales del siglo XVII contra distintos portugueses que vivían en la ciudad de Madrid, villa y corte del rey Felipe IV. A partir del estudio de tales testimonios recogidos en el archivo, se han examinado las creencias, ideas y rumores que circularon por la ciudad acerca de esta población inmigrante en la ciudad, lo que nos permite conocer algunos aspectos inéditos y de gran interés sobre las mentalidades y las actitudes que caracterizó a la sociedad madrileña ante esta realidad concreta. Además, una vez se concluye el examen de las fuentes, ante nosotros aparece una Inquisición que nos muestra algunos rasgos suyos hasta ahora desconocidos e insospechados, especialmente en lo que se refiere a su relación cotidiana con la sociedad local madrileña, en la que tomó asiento durante varios siglos.
  • Los berberiscos en el Madrid del siglo XVII a través de las testificaciones del Santo Oficio
    Mohamed Saadan (Instituto de Estudios Hispano-Lusófonos de la Universidad Mohammed V – Marruecos)
    Expulsados los moriscos entre 1609 y 1614, otro elemento de procedencia islámica va a ocupar su lugar en el espacio y en el imaginario de la sociedad veterocristiana, convirtiéndose en un nuevo foco de los miedos y animadversiones a lo largo del siglo XVII. Se trata de la minoría de berberiscos, procedentes en su gran mayoría de cautivos, esclavos y libertos en proceso de retorno al norte de África. No constituían una grey numerosa, pero sí suponían un combustible para que aquel imaginario en torno al moro histórico no se apagara después de la expulsión de los moriscos. La villa y corte de Madrid era uno de esos espacios donde el componente berberisco pululaba por las calles y avivaba el rechazo que había experimentado su correligionario morisco con anterioridad. Su comportamiento de pertenencia islámica y sus señas de identidad norteafricana recordaban al cristiano un pasado recién pasado, y su estatus social no permitía ningún tipo de integración o sorteo de la percepción mayoritaria, una percepción acompañada con continuas peticiones de expulsión fuera de Madrid e incluso fuera de todos los territorios de la monarquía hispánica.
    De esta realidad histórica sabemos gracias a los libros de testificaciones del Santo Oficio. Son testificaciones del pueblo ante la Inquisición: algunas, en forma de elaboradas delaciones voluntarias, portavocedas en ocasiones –si no ideadas– por algún religioso celoso de la cristiandad de su comunidad; otras, son testimonios por requerimiento de las autoridades inquisitoriales, surgidos a raíz de alguna delación anónima o denuncia directa por sospechas de prácticas heréticas. Son estas testificaciones, reunidas hoy en libros voluminosos, las que nos han servido para rastrear, desde una perspectiva cualitativa, las andanzas de los berberiscos en el Madrid del siglo XVII y el tipo de interacción que mantenían con la sociedad cristiana. El resultado final: una minoría que hereda la misma imagen y la misma suerte que sus correligionarios moriscos del siglo XVI.
  • Conflictos entre los inquisidores de Évora y la universidad en el mercado local: los cadernos do Promotor de la Inquisición portuguesa
    Marco Antônio Nunes da Silva (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – Brasil)
    La documentación producida por la Inquisición portuguesa durante sus casi trescientos años de existencia ha sido de interés único para el estudio de la vida cotidiana. A través de los procesos inquisitoriales y los cadernos do Promotor, entramos en contacto con la vida cotidiana de las regiones más diferentes del Imperio portugués. En este sentido, y más particularmente, los cadernos son indispensables para pensar de manera más amplia sobre los diversos prejuicios posibles al acercarse a la corte sagrada.
    La delicada ya veces problemática cuestión de los privilegios de los que goza el Santo Oficio no solo chocó con los intereses de las almotacels, sino también con muchos de los representados en las Cámaras. En ocasiones, los almotacels y los concejales se han unido a la difícil tarea de poner en peligro los preciados privilegios del Santo Oficio.
    El incidente que se conoció como el caso de las manzanas en los años cuarenta del siglo XVII, colocando a los inquisidores y a los jesuitas, que estaban a la cabeza de la Universidad de Évora, en lados opuestos, aunque el más conocido, no fue el único de seiscientos. Los cadernos do Promotor de la Inquisición de Lisboa contienen en sus cientos de folios otros ejemplos en los que es posible ver el Santo Oficio, por medio de sus agentes, siendo disputado y ofendido, a veces de una manera bastante desafiante.

MESA REDONDA 4 – INQUISIÇÃO, CRISTÃOS-NOVOS E ANTI-JUDAÍSMO
Coordenadora: Elvira Azevedo Mea
Focar facetas menos conhecidas e aprofundadas relativas ao Santo Ofício, como peculiaridades da sua estrutura e atuação no Brasil, a questão dos mouriscos e a evolução do antissemitismo desde a Idade Média. Desenvolve-se ainda a Inquisição na sua relação com o poder, a sociedade e as mentalidades.

  • A Inquisição no Brasil
    Sonia Siqueira (Universidade de São Paulo – Brasil)
    A necessidade de adequação às novas perspectivas da História resultou o estabelecimento de outros paradigmas que passaram a enquadrar o saber nos dias atuais. Imperativa se tornou a revisão das fontes do conhecimento histórico. Aqui se insere a importância de revisitar os testemunhos deixados por uma instituição como o Santo Ofício presente nos primeiros anos coloniais.
    Os possibilismos da abordagem. Narrar os fatos apenas ou priorizar as explicações? O fato primordial é a presença do Santo Ofício no Brasil. As explicações põem em pauta a inserção do Brasil na História Ocidental com a mediação ibérica tendo como pano de fundo o mundo atlântico. (Implica a captação das vivências.
    Rever o Passado. Rever a História, rever o Homem. Análise de uma instituição vigente nos anos da Modernidade para entender e recompor a memória social. Rever a História recompondo a história vivida. Rever o homem olhando a vida colonial.
    A presença da Inquisição no Brasil como decorrência da política colônia. Importa saber onde, como, por quanto tempo e por quê. Importa analisar dificuldades e entraves à ação inquisitorial. Basicamente dificuldades no configurar e repelir a heresia, objetivo da Inquisição.
    A heresia no Brasil colonial: heresia cabocla. No Brasil a heresia existiu, mas com outra configuração daquela europeia: mal definida do ponto de vista estritamente dogmático surgindo mesclada ao crime e ao pecado. Cabocla por que ligada aos sincretismos e às hibridações visíveis nos universos mentais de seus portadores, transparente as palavras e nos atos. O próprio condicionamento da Colônia e a dinâmica da colonização impuseram relativa tolerância com os desvios de comportamentos. A coroa teve transigências para não comprometer a obra colonial. O Tribunal foi benevolente nos casos de fraquezas que não eram propriamente desafios.
  • Cristãos-novos mouriscos: em busca de uma identidade perdida
    Maria Filomena Lopes de Barros (Universidade de Évora – Portugal)
    Os muçulmanos portugueses, tal como os judeus, foram objeto da expulsão/conversão forçada decretada por D. Manuel e, neste caso concreto, seguida nos demais reinos peninsulares. ‘Mourisco’ designa, pois, neste contexto específico, qualquer cristão-novo de origem muçulmana. Com conotações, contudo, distintas nos diferentes reinos peninsulares: se para Espanha os mouriscos são os descendentes diretos de uma população autóctone, para Portugal constituem-se com uma comunidade forânea, maioritariamente constituída por cativos marroquinos.
    Nesta comunicação propõe-se uma análise centrada nas comunidades mouriscas de Lisboa e de Setúbal (séc. XVI) numa dupla perspetiva: a dos inquisidores, na sua perceção redutora do islão, na dos mouriscos, na reconfiguração de uma identidade própria, em função dos parâmetros culturais de um Marrocos perdido, mas recriado em Portugal.
  • Inquisição, poder, sociedade e mentalidades
    Elvira Azevedo Mea (Universidade do Porto – Portugal)
    Caracterizar no tempo as inter-relações da Inquisição com os poderes instituídos, a sociedade e o seu papel como modeladora das mentalidades.
  • Antijudaísmo e antissemitismo, em Portugal, no Antigo Regime e na Época Contemporânea
    João Paulo Avelãs Nunes (DHEEAA/FLUC e CEIS20/UC – Portugal)
    Procura-se, nesta comunicação comparar, por um lado, as concepções e as práticas antijudaicas, vigentes sobretudo nos períodos medieval e moderno; por outro, as concepções e as práticas antissemitas, dominantes na Época Contemporânea. Considera-se, ainda, a forma como, no Portugal do Estado Novo, a Ditadura caracterizou o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição e se posicionou relativamente ao fenómeno do antissemitismo.

MESA REDONDA 5 – INQUISIÇÃO E ÁFRICA
Coordenador: José da Silva Horta
Nesta mesa temática, as fontes da Inquisição portuguesa são exploradas em diferentes vertentes para o estudo de contextos africanos que elas permitem documentar de forma inigualável. Se estas fontes têm sido objecto de investigação da acção do Tribunal, enquanto instituição e braço de poder metropolitano no continente africano, matéria que está longe de se esgotar, a historiografia recente tem evidenciado a sua contribuição para o conhecimento dos quotidianos dos africanos e europeus, projectando, de forma inovadora, o conhecimento da História social e cultural da África. Pelas próprias características dessa documentação e das abordagens historiográficas que as potenciam, trata-se de uma história que é reconstruída a partir das pessoas, dos percursos individuais, do concreto do vivido e das representações do mundo que as rodeia. Acercam-nos das redes de poder, de interesses mercantis, em particular ligados ao tráfico de escravizados, ou de solidariedades religiosas que se imbricam ou que têm um impacto nas suas vidas. Identificam-se e valorizam-se as produções culturais autónomas, sobretudo no campo do religioso, no interior do universo documental heterogéneo que se convencionou designar por inquisitorial e a necessária complementaridade com outras fontes. Da África Ocidental à África Central, aos seus processos de integração no mundo atlântico, e conexões com o império português, esta mesa temática contribui para uma história social do comércio e das mulheres e homens comerciantes e suas famílias. Contribui também para uma história das identidades e experiências religiosas africanas e europeias em interacção, que com a primeira abordagem se funde, da repressão a que foram sujeitas pela pressão católica do Santo Ofício, instrumento dos poderes portugueses locais e das lógicas imperiais.

  • Correspondência privada de judeus portugueses na Senegâmbia, no início do século XVII: laços familiares, relações de confiança e identidade religiosa
    José da Silva Horta (Centro de História da Universidade de Lisboa) e Peter Mark (Wesleyan University/Centro de História da Universidade de Lisboa)
    A partir de um estudo relativo à Senegâmbia do início do século XVII, pretende-se reflectir sobre as condições de produção dos documentos que chegam à Inquisição para reconstituir quer as vivências familiares, quer as dinâmicas identitárias dos denunciados por Judaísmo. Referimo-nos em concreto à correspondência privada, interceptada por terceiros e carreada como “probatória” nas denúncias. A base do estudo será um conjunto de cartas particulares recepcionado pela Inquisição de Lisboa. Estas cartas foram redigidas autonomamente, sem qualquer mediação de instâncias judiciais civis ou sobretudo eclesiásticas, ou alheias à intervenção de agentes do Santo Ofício. Não têm, por isso, os filtros da documentação inquisitorial propriamente dita, que não aqueles que os próprios autores ou autoras introduziram, na forma como se pretendem apresentar junto dos seus interlocutores ou na antecipação de uma violação da correspondência. No caso dos judeus “públicos” ou “declarados” no contexto da Senegâmbia, pretende-se mostrar que essa produção escrita autónoma constitui evidência aguda da pluralidade de auto-representações de identidades religiosas nos relacionamentos que estabelecem com diferentes parceiros africanos ou europeus na região. Dilucida, outrossim, a perspectiva dos familiares que residem na Europa e lhes enviam correspondência para os “Rios da Guiné”. Avultam as autorias de mães e irmãs que, à distância, sofrem pela ausência dos seus entes queridos. As suas escritas transportam-nos para as emoções do universo feminino das famílias que vive intensamente a diáspora, mercantil mas também religiosa, do seus filhos e irmãos.
  • A Ação do Santo Ofício em Cacheu: interesses da Coroa Portuguesa, poderes locais e cotidiano na África Ocidental (Século XVII)
    Vanicléia Silva Santos (Universidade da Pensilvânia/Universidade Federal de Minas Gerais)
    Ao tratar da ação do Santo Ofício na povoação de Cacheu na primeira metade do século XVII foi possível compreender como se deram as relações entre os interesses mercantilistas da Coroa Portuguesa e os poderes locais naquela região da Senegâmbia. A metodologia da micro-história foi aplicada para romper com a ideia de um contexto visto de cima para baixo, no qual os atores sociais teriam determinado suas escolhas de vida para atender aos interesses do chamado Império Português e do Santo Ofício. Assim, por meio do diálogo com a historiografia e da análise de fontes escritas – o extenso processo inquisitorial com dezenas de testemunhos de acusação contra Crispina Perez, moradora de Cacheu, documentos administrativos relativos a Cacheu – apresento novas contribuições para a relação entre Inquisição, escravidão e cotidiano na costa da África Ocidental. Argumento que a prisão de Crispina Perez entre 1665 e 1668 foi uma forma de eliminar a concorrência de uma das comerciantes mais poderosas do comércio atlântico naquela região.
  • Subsídios para o estudo do Islã na África a partir da inquisição portuguesa (séculos XVI e XVII)
    Thiago Henrique Mota (Universidade Federal de Viçosa)
    Esta comunicação analisará o Islã praticado na África Ocidental (entre os atuais Senegal e Guiné-Bissau) a partir de subsídios documentais presentes na Inquisição portuguesa. O corpus documental inquisitorial está praticamente inexplorado por estudos da presença e expansão muçulmana na África, a despeito de vários muçulmanos wolofes terem sido processados no tribunal de Lisboa, acusados de praticar o Islã na diáspora vivida em Portugal. Parte-se da presença de pequenos textos escritos em árabe em um processo inquisitorial – no espaço referente à assinatura do muçulmano processado – para analisar os diálogos e contribuições deste tipo de fonte aos estudos islâmicos africanos. Assim, processos da Inquisição são discutidos à luz de crônicas escritas em Timbuctu, narrativas de viajantes europeus que visitaram este trecho da costa africana e fontes orais presentes em arquivos do Senegal e da Gâmbia. O foco é na atuação de agentes wolofes, mandingas e fulas, seus relatos diante do Santo Ofício, suas produções textuais orais e escritas realizadas na Senegâmbia, bem como no papel que tiveram na estruturação de relatos de viajantes europeus, a quem transmitiram informações. Neste conjunto, as fontes inquisitoriais lançam novas luzes ao estudo do Islã, trazendo informações novas e complementares às outras tipologias documentais.
  • A doença do zumbi em Angola nos séculos XVII e XVIII
    Alexandre Almeida Marcussi (Universidade Federal de Minas Gerais)
    Na passagem do século XVII para o XVIII, as fontes produzidas pelo Santo Ofício e por missionários católicos nas regiões de Angola com presença portuguesa permitem observar a ocorrência de um tipo de prática cerimonial terapêutica destinada a tratar uma enfermidade conhecida como zumbi ou quilundo, dentre outras denominações. A despeito da terminologia variada e de procedimentos ritualísticos heterogêneos, essas práticas possuíam um núcleo religioso e cultural compartilhado, de matriz predominantemente ambunda, segundo o qual uma série de aflições podia ser atribuída à ação de espíritos de antepassados hostis, indicando uma relação inadequada entre os doentes e sua ancestralidade. Pretendo argumentar que os deslocamentos demográficos em massa produzidos pelo comércio atlântico de escravos em Angola e a repressão das práticas religiosas africanas intentada pelos portugueses nas áreas sob sua administração foram responsáveis por perturbar as relações entre os grupos sociais ambundos e os espíritos de seus antepassados, inviabilizando assim as formas costumeiras de culto aos ancestrais. Com isso, aflições como o zumbi ou o quilundo, bem como as práticas terapêuticas destinadas a curá-las, tornaram-se amplamente disseminadas nas regiões no entorno de Luanda, Benguela e no vale do rio Kwanza, atraindo não apenas africanos como também portugueses e luso-africanos da região.